Ela Se Foi

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Ela se foi.

Eu que era um defensor da guerra, da religião do aço, sempre gritava quando ela me alertava sobre os horrores das vidas perdidas, muitas delas inocentes, mesmo nas linhas. Fingindo ser empático para mim mesmo, ainda que minha fala fosse em berros, eu dizia que era o sacrifício, e não estava tão errado assim: eu tinha sido treinado para morrer e aceitar a morte do outro, mesmo que pelo fio da minha espada.

Só não esperava que essa mesma guerra a pegaria. Não sabia que não estava preparado para isso. Afinal de contas, ela era só minha esposa. Qual o problema para se arranjar uma nova?

Mas qual outra esposa vai tolerar todas essas cicatrizes na minha cara do mesmo jeito que ela?

Não sabia que não estava preparado.

Eu pedi e os deuses me atenderam. Agora de verdade só me resta a guerra.

Sim, eu serei um bom vassalo, me ajoelharei enquanto cuspo mentalmente em todos os símbolos, que são para aqueles com as vidas ainda previsíveis em suas cabeças como a minha foi um dia. Tudo para empunhar minha espada. Agora eu sou invencível, pois eu sei que a guerra, no fim, não trará nada daquilo que eu espero para mim ou para os outros.

Sem o medo da morte e sem o anseio pelos espólios (será que eles são a mesma coisa?), nada me distrai.

Eu vejo meu Bom Lorde pela pessoa medrosa que ele é. Eu vejo meus antepassados pelos camponeses que eles são, carregando a charrete com suas bugigangas ao primeiro soar das cornetas ou pelas histórias de um lugar onde o centeio cresce mais rápido. E eu dizia aos meus companheiros – e a ela, principalmente: meu sangue camponês é o que me dá força na linha. Mal sabia que era ele que quase me matou, vez após vez.

Agora eu sou invencível.

Agora não faz mais diferença ser invencível.

Ela se foi.

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