Esculpindo

sculpting-a-life

O escultor sempre achou legal pegar a massa com as mãos, a sensação da…daquela picaretinha, tá ligado, e acho que tem uma espátula também, parecida com aquelas de cortar e servir bolo – mamãe disse pra eu nunca cortar o bolo até o meio, mas deixar um circulozinho no centro – e, acima de tudo, de pegar as formas que ele delineava mentalmente ao ver o mundo e transformar a argila ou o carraro numa daquelas formas, tentar reproduzí-las. Era legal, até que ele começou a levar a sério. E então ficou menos legal.  A lembrança daquela sensação primal era o que o movia pela parte não tão legal, e uma vez ou outra ele conseguia esquecer de evitar as críticas internas e externas ao seu trabalho e ela voltava.

Sem saber, ele estava buscando a perfeição. A excelência. A ausência de falhas identificáveis. Sem saber, ele estava aos poucos descobrindo que a perfeição era o que ele tinha encontrado naquelas primeiras experiências de mão na massa e na picaretinha. Distraído pela forma e pelo objeto, uma imagem mental cada vez mais oscilante, ficou mais e mais palha esculpir.

Num certo crepúsculo, no quintal da casa, a estátua bonitinha que ele, em sua obsessão perfeccionista, julgava ser uma evidência do limite de seu talento ou seu destino de escultor genial e de gola rolê preta no folder de algum lugar cult (Concurso? Universidade? MBA? Firma do coroa?), na luz já pequenina e fria caindo por trás do horizonte, ele viu a estátua bonitinha se transformar numa silhueta preenchida de preto, notando que o crepúsculo ficava mais bonito com a silhueta da estátua em seu plano de frente, e a estátua mil vezes mais bonita sendo apenas sugerida com o contorno crepuscular. Como aquela primeira impressão que aquelas primeiras formas belas lhe causaram.

Pareceu ainda mais belo para ele o fato de que um dia certamente a estátua iria virar pó. Esta era a única perfeição jamais alcançável.

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