Dr. Invisível

dolk-shrink

“Então doutor, esse é um caso especial. Por mim, eu nem mandava para o senhor, mas a administração insistiu.”

Doutor Invisível ajeitou os óculos contra o nariz afundado na ficha mal preenchida. Fez uma cara de desânimo.

“Fizeram certo em mandar”, disse Dr. Invisível. “Agora eu preciso que você faça uma coisa para mim. Me traga maquiagem e um nariz de palhaço junto com o paciente.”

“Doutor…”

“Ou então uma caixa de papelão pra você pôr suas coisas quando eu te disser para te mandarem embora.”

O estagiário saiu manso, pensando que, ao relatar as exigências do Dr. Invisível para o trato daquele paciente, a administração do hospital psiquiátrico iria sorrir e lhe dizer para ficar tranquilo e só levar o paciente em sua maca.

A mulher estava vestida numa túnica hospitalar verde-petróleo, inerte. Respirava, movia os olhos e fazia cara de choro. Não havia mais lágrima que restasse para ela verter. Um caso de desistência de agir. O estagiário também fazia careta, mas uma de medo, possivelmente devido ao conteúdo da sacola parda que trazia junto com a mulher.  Dr. Invisível tomou a sacola.

“Escuta, Daniel: leve a maca para o estacionamento em quinze minutos e deixe a senhorita no asfalto. A segurança vai entender.”

Dr. Invisível apareceu no estacionamento de lanterna na mão, maquiagem branca no rosto e nariz de palhaço. A senhorita estava deitada no chão do asfalto, em posição fetal. O Dr. jogou a lanterna em sua cara. Pôde ver com o canto dos olhos uma janela acesa no segundo andar do hospital com a silhueta de Daniel, provavelmente de mão no celular; não para tirar foto, com certeza. A luz nos olhos da paciente mudou sua expressão. Dr. Invisível então jogou a luz em sua própria face, no modo histórias-de-terror-diante-da-fogueira, e sorriu. A paciente gritou, levantou-se e correu para dentro do hospital.

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