Backlash

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A relação que os smartphones começaram a ter com lugares altos poderia parecer estranha para os psicólogos, sociólogos e para o pessoal do marketing, mas não para Udugabuga. Era óbvio que tendo em mãos um equipamento com a potência de transmissão midiática maior do que qualquer tecnologia anterior aos anos setenta, e estamos falando aqui de equipamento profissional e caro, era óbvio que o desejo por ver-se em primeiro plano numa situação de perigo seria irresistível para alguns. Daí os lugares altos. Quando ser o novo homem aranha que tira selfie do alto do Empire State ficou sem graça, e quando se vê um maluco fazendo skydiving com uma go-pro na TV na hora do jantar, começaram os suicídios. Selfie se jogando do topo do edifício X de Dubai. Da ponte. O detalhe é: tem que compartilhar bem rápido antes que se caia e o celular seja destruído junto com o corpo. Por isso, nada de internet 3G e equipamento de baixa qualidade.

Claro que o Seu Zé e a Dona Maria só queriam falar no Whatsapp com os filhos, nada de selfies suicidas, mas os poucos casos reverberaram e começaram um ódio contra os benditos celulares. Para por a cereja no bolo, o International Studios escalou um time com as celebridades mais bonitas e oscarizadas de Hollywood e criou um filme onde todos os personagens morriam em decorrência do uso excessivo de smartphones.

Udugabuga sabia que era pouco, comparado com o que estava por vir. Podia sentir o cheiro da merda batendo no ventilador.

Uma campanha iniciada por uma ong internacional formada a partir de grupos de recuperação de viciados em pornografia levou a pauta aos governos anglo-saxões, que decidiram criar um novo marco internacional para o uso de dispositivos móveis. Sem câmeras. Sem mensagens ou Whatsapp. A guerra iria durar décadas, mas transformou um smartphone com tudo dentro em algo equivalente a andar com uma katana amarrada na cintura.

As armas do povo mais cascudo do backlash tecnológico – como Udugabuga – para lutar contra a tirania dos aplicativos, eram emails, SMS’s e mensagens em secretárias eletrônicas. E tinham aqueles mais radicais que enviavam cartas em pombos-correio ou corvos, mas estes estavam querendo mais curtir uma onda excêntrica do que lutar contra o inimigo.

Udugabuga fazia tudo aquilo porque estava se sentindo sozinho.

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