Dr. Invisível e a Aranha

dolk-shrink

Estupradores sempre são um caso à parte.

A aranha no canto da sala devia ter o tamanho de uma daquelas mosquinhas que aparecem quando a louça é abandonada por dias. Não se podia ver as teias senão pela insinuação da distância entre sua autora e os cantos da parede. Balançava. Quando se apertava os olhos, era possível notar um pontinho preto atraindo a aranha, que avançava bamba e decidida. Nada menos que a destruição de todas as suas posses a convenceria do contrário. E então, se sobrevivesse, escalaria até outra quina, teceria mais uma teia, capturaria mais uma mosca e faria mais uma travessia até a refeição.

Daniel não tinha conseguido trazer sozinho o paciente. Ninguém teria. Estava algemado. Devia pesar uns cento e cinquenta quilos. A camiseta branca estava manchada na altura das tetas masculinas. Se dessem um pedaço muito grande de comida para ele, poderia muito bem arregaçar a própria garganta tentando engolir tudo de uma só vez. Dr. Invisível cansou de bancar o estudante compreensivo; o olhar do homem andava de um lado para o outro, com as pálpebras semicerradas e o beiço inferior pendendo

Três batidas na porta. Do outro lado dela, a sacola parda e um pedaço de pau encostado no batente. O doutor retornou ao seu assento. Cruzou as pernas e manuseou o conteúdo do saco. Uma máscara de gás. Vestiu. Um frasquinho com um líquido amarelo dentro. O gordo não pareceu notar. O doutor trancou a porta, abriu o frasco e empunhou a clava. Dez segundos depois, o homem estava agonizando e gorgolejando e contorcendo-se ao máximo que seu corpo permitia. Aproveitando a prostração do paciente, o pau cantou. Era como bater num pneu de trator.

Três dias depois, Dr. Invisível e Daniel admiravam a vista do estacionamento do Hospital Psiquiátrico desde a janela do consultório. O gordo fazia voar pedras até onde os seguranças – protegidos por tampas de latas de lixo – permitiam.  Gritava o nome do doutor.

“Outro espancamento?”, perguntou Daniel.

O doutor pegou o celular e ligou para a Guarda Municipal. Fê-los garantir que seriam gentis com o homem.

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