Fundamentos da Fantasia

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É difícil abordar um gênero literário de maneira justa num artigo dissertativo, pois, por definição, estaremos nos dispondo a estabelecer certas fronteiras turvas e disputadas. Há também o problema dos níveis – também mais turvos que a mente dissertativa gostaria – nos quais os elementos caracterizadores de um gênero são aplicados na construção de uma narrativa.

No começo, houve a palavra. Podemos traçar uma linha de objetivos estilísticos que vai entre a intenção de desviar a atenção do texto para os objetos que o texto almeja e a intenção de trazer atenção ao próprio texto. Aquilo que se chama de “alta literatura” ou “literatura séria” estará disperso por esta linha estilística a depender das disposições poéticas do autor. Por outro lado, a ficção de gênero tenderá ao lado “esquerdo” desta linha, a prosa orwelliana, a janela de vidro pela qual é apresentada a ação ficcional.

Também podemos conceber um esquema que representa os objetos do texto, onde então podemos falar de diferença entre realismo e fantasia. Partimos do princípio que todo trabalho de ficção envolve a criação de um mundo fictício, e que qualquer desvio deste mundo na narrativa ocorre em relação a uma determinada âncora. Esta âncora é o status quo da realidade fictícia, o porto seguro do leitor que o impedirá de perder-se completamente e concluir ao fim que o autor não passa de uma pessoa esquizofrênica que deu sorte. A única saída visível para uma ausência ou precariedade da âncora é um desvio da atenção para o próprio texto enquanto arte visual e musical, um dos extremos da linha estilística citada anteriormente. Uma prosa “genial”, única e de melodia comestível navegando num mar revolto de imagens e cenários.

A fantasia sediada num universo inteiramente fictício (um grande facilitador do trabalho do autor é ancorar a história no mundo no qual conhecemos e concebemos, e a partir dali dar saltos fantásticos) normalmente demanda uma lógica interna de cenário muito mais coesa do que uma história passada em Presidente Bernardes – SP ou Viena ou Adis Ababa. O que nos traz de corpo e alma para dentro dos mundos de Tolkien e George RR Martin é que a fantasia começa a nos parecer mais lógica do que o mundo no qual vivemos.

A história sediada no mundo real – especialmente se for o mundo contemporâneo – possui a vantagem da familiaridade e de uma curva de aprendizado suave. É muito mais complicado extrapolar o status quo do cenário fictício quando o trabalho de familiarização é metade do trabalho, como nas histórias de fantasia e – especialmente – nas histórias de ficção científica. A ficção científica, melhor dizendo, o tipo ideal da ficção científica é o desdobramento de um fundamento lógico e situacional, e aí está boa parte do prazer em ler e escrever ficção científica. A fantasia, por ter mais limitados estes elementos lógicos em prol de uma imagística, requer uma familiarização a priori sólida. Daí vêm os clichês dos quais é complicadíssimo fugir.

Com o entendimento das diversas âncoras da qual se vale um cenário – lógica-especulativa, tradicional, o mundo como ele é ou a poesia do texto -, fica mais fácil alocar intelectualmente as gradações dentro do gênero.

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