Eu Caminhei Pelo Vale Escuro

vale escuro

Eu caminhei pelo vale escuro, usando o medo como meu cobertor.

E quando me sentei no fogo para contar minha história, quem acreditou? Quem foi capaz de entender que não há final feliz nesse caminho? Quem foi capaz de entender que caminhar pelo vale escuro não muda nada?

Como eu fui capaz de acreditar que alguém entenderia, se eu mesmo não me disponho a entender essas pessoas?

Caminhar pelo vale escuro não tem razão. Não ensina. A vida não é uma escola, e a trilha do vale não é exceção. Não se caminha por ele por nenhuma razão, caminha-se apenas quando as razões para o evitar terminam.

O vale não é mortal. Não existem monstros. Não se passa sede. Não há nada que haja lá que não haja aqui em cima. As pessoas em volta do fogo imaginam algum tipo de tesouro, guardado por algum tipo de guardião terrível, e o medo do dragão é sempre maior do que o desejo pelo tesouro. Mas não há nada disso.

Só medo.

E aquela sensação de que talvez o vale escuro seja o seu lugar, já que acima dele as coisas não vão bem.

Pelo medo dele, vemos muitas miragens; silhuetas nas sombras, dançando diante dos nossos olhos, como para tentar nos convencer de que há algo escondido. Baseado nas silhuetas e nas supostas visões e nas lendas que se conta ao redor do fogo sobre o que habita o vale escuro, cria-se teorias. Superstições. Métodos. Porque ninguém aqui de cima vive sem o medo e o desejo pelo vale escuro. Nem quem já andou por lá, e não foram poucos.

Mas quem acreditará que você passou por lá? Onde está o dragão que teria que estar lá? E, se não há dragão, onde está o tesouro? E se não há nenhum dos dois, por que você ainda tem medo? O Grande Guru passou por lá, derrotou o dragão, pilhou o tesouro e perdeu seu medo. Quem é você para se comparar com ele?

O Grande Guru é somente um escritor, um ator, mas quem sou eu para questionar todas as pessoas em volta da fogueira, fantasiando sobre o vale escuro?

Tem que estar confortável demais para fazê-lo. Por sorte ou azar, não é meu caso.

O medo do vale mantém as pessoas satisfeitas aqui em cima. O desejo pelo vale as mantém andando para lá e para cá, sem nunca parar, sem nunca escolher um caminho e simplesmente ir. Eu não sou exceção, mas, por alguma razão, nas minhas andanças eu encontrei a entrada do vale. Sabia que o caminho era por ali. Não tive tempo de pensar demais no dragão. Com o tesouro em mente, avancei.

Agora, de volta ao fogo, eu deixarei de falar do vale. Ele é a razão de viver dessas pessoas. Nunca tire de um fanático seu brinquedo. Mais pessoas aqui em cima foram assassinadas por esta causa do que por todas as outras causas juntas.

E se alguma das outras almas quebradas como a minha chegar até mim, e se uma dessas almas, por uma razão que não cabe em minha cabeça, perguntar-me o caminho, eu não a direi para descer ao vale – e ela estará simples e unicamente tentando criar coragem para cruzá-lo –, mas direi a ela que não há nada lá. Nada que não haja aqui. E não é mais feio nem mais bonito. E nada muda. E você continua a ser você. E o bicho negro que vive no seu peito continua a pedir comida. Por isso, o melhor a fazer seria aceitar a verdade de que não há tesouro nem dragão no vale.

Acreditará ela? Claro que não. Ela irá ao Grande Guru e suas fábulas sobre o vale. Ou então, quando finalmente descobrir que o Grande Guru não está contando a verdade inteira, como um instrutor de fitness que esconde seu uso de anabolizantes, ela empreenderá a jornada. Alguns nunca voltam; os demais acham que foi o dragão que os comeu.

A única causa de morte no vale escuro é o suicídio. Pois quem vive sem suas fantasias sobre o vale?

Caminhei e sobrevivi. Agora, onde eu parei mesmo?

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