Positividade

positividade

Não é difícil entender a frustração e a sensação de impotência de uma espiral emocional negativa. Aquela boa expectativa que foi nossa em algum momento da infância e juventude vai sendo, pouco a pouco, comprimida pela realidade da vida e nós começamos então a buscar uma cura. As primeiras buscas, que podem começar lá no começo, mal reconhecemos como cura: são distrações, ferramentas disponíveis para afastar nossa atenção de qualquer coisa que esteja nos comendo por dentro. As segundas são promessas de transformação, o primeiro motor de uma espiral positiva, uma promessa de autenticidade pessoal, produtividade, conexão, autoconhecimento, dinheiro, romance, viagens, six-pack, ideologia, pose de yoga ao pôr-do-sol na praia.

Uma situação desesperadora pode se beneficiar da busca pelo positivo idealizado, mas não é necessário que se esteja tão ao fundo do poço. Afinal, quem não tem, no âmago do âmago, a sensação de vazio existencial? Somos adultos por fora e crianças por dentro, e a criança sempre quer balinha.

O problema com a busca pela positividade é que ela não é sustentável (eventualmente a busca terá que ser intensificada ao ponto do fanatismo, da mesma forma que o viciado em drogas está condenado a sempre ter que aumentar sua dose) e requer que se elimine metade da experiência de estar vivo. A dor, a tristeza e o tédio são partes integrantes da nossa humanidade. Quem se envereda pelo ramo da ficção sabe que a busca pelo positivo idealizado pode aleijar severamente a capacidade de criar narrativas significativas.

As expressões mais utilizadas para o que chamamos aqui de positividade são crescimento pessoal e evolução pessoal. Ambos os conceitos são esburacados, uma vez que nem sempre a vida apresenta-se como crescimento. Todos nós estamos envelhecendo e morreremos algum dia; todos nós temos “problemas” emocionais que fazem parte da nossa própria personalidade, como uma placa mãe com defeitos que, apesar de tudo, ainda é a placa mãe.

Existe um Eu Autêntico, uma verdade no fundo, uma parte de nós que apenas se expande, nunca contrai, que é apenas luz e nunca escuridão. Só que ele não é pessoal. Crescimento pessoal, evolução pessoal e a positividade idealizada são sempre pessoais, e, como com qualquer pessoa, os anos pesam e os enrugam.

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