Sobre a escravidão

Sobre a Escravidão

A necessidade de se sentir bem o tempo todo nos persegue como um fantasma silencioso, oculto por camadas de retórica pinçada de cem fontes que nos fazem parecer caminhar em cima do muro do bom senso. Nem sempre foi assim e nem sempre é assim. Na verdade, com a maior parte das pessoas do planeta hoje não é assim. Eu falo da questão da retórica, porque sentir-se bem o tempo todo, de uma maneira ou de outra, sempre foi assim. A questão é que na maior parte da história humana não foi factível: sentir-se bem o tempo todo era transposto para a próxima vida, para a salvação, para a reencarnação na qual você iria se iluminar, restando para nossas vidas viver somente com a única coisa que funciona para que se aguente a expectativa da morte: valores.

Valores. Que podem ser muito bem transfigurados num monstro assassino através da mesma crença de que o sentir-se bem o tempo todo será possível na pós-vida, ou de que quem não faz as coisas do jeito que eu faço deve começar a fazer. Valores são o resultado da conclusão de que não só não é possível sentir-se bem o tempo todo, como tentá-lo é algo violento, seja nessa vida, na próxima ou, principalmente, na vida alheia.

E o fantasma é silencioso, porque é programado. Intrínseco. Você cresce e amadurece e tenta estabelecer um equilíbrio entre aquela parte de você que quer se sentir bem o tempo todo e a outra parte que entende que isso não é possível. Vou ficar de boa. Caminho do meio. E, lentamente, a balança começa a pesar para o lado da criança, arraigada, invulnerável a argumentações ou a concepções de gestão integral da vida ou à conquista de objetivos meramente intelectuais. E mais uma vez você se fode, e mais uma vez você tenta ajeitar a balança, até que todos os métodos começam a perder viço aos seus olhos. Então as obrigações surgem como um chicote a impedi-lo de ser feliz; as pessoas, essas malditas pessoas que não entendem o óbvio e não me entendem, apresentam-se como um muro entre você e o sentir-se bem; e a fragilidade do corpo; e aquele fato triste de que tudo que te faz verdadeiramente feliz naquele momento eventualmente perde a capacidade de te fazer feliz e quando isso acontece transforma-se num vício que te come aos poucos, cocaína, antidepressivo, bolo de chocolate, picanha, sexo, casamento, carreira, exercício, time de futebol, videogame, pornografia, cachaça, maconha, cigarro, festas, viagens, compras, tatuagem; que numa dose moderada são pequenas alegrias, mas o fantasma silencioso irá cravar sua mira neles e implorar para que você transforme algum deles numa sensação também fantasmagórica de que o sentir-se bem o tempo todo está próximo, bem ali depois do balão.

Não é uma ironia. É um programa destinado à sobrevivência. Mas poucos de nós vivemos hoje numa tribo neolítica no meio do sertão virgem, onde essa necessidade era o que nos fazia caminhar três dias e três noites atrás de uma galinha selvagem. E o programa continua rodando, num ambiente cujo perigo é justamente a vontade de sentir-se bem o tempo todo. É anti-intuitivo não o fazer, não é verdade? Agora eu me pergunto, qual buscador espiritual que preze por sua reputação irá dizer que a intuição é um programa pré-histórico de sobrevivência dentro de um ambiente na qual a sobrevivência necessita de um programa mais sofisticado? É a mesma coisa que chegar para um fabricante de revistas e dizer que seu produto, que por décadas e décadas serviu e muito a uma parcela muito bem posicionada da população, não serve mais aos dias de hoje, e que na verdade um maluco sozinho escrevendo uma postagem num blog sem pesquisa, sem redação e sem departamento de contabilidade e RH irá atirá-lo à sarjeta se ele não se der conta de que o trabalho de sua vida inteira deve ser transposto para um meio anti-intuitivo que para ele lembra seu filho gordo passando as noites desperdiçando seu tempo precioso de estudo com jogos.

É difícil. Mas é uma questão de sobrevivência. Num sentido muito profundo.

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