Para além de orcs e elfos

PAra além de orcs e elfos

Primeiro, nós aprendemos as formas, a mimetizar, um modo de agir ritualístico no qual tentamos imitar o mais fielmente possível aquilo que nos inspira a agir.

A reviravolta que a Terra-Média causou, especialmente nos anos 60, capturou mentes que nutriam o desejo por criar literatura fantástica – inspirados originalmente pelas narrativas mitológicas, medievalismo, autores como Robert E. Howard e a geração pulp – e as ofereceu um modelo que funcionava. Nesta infância da literatura fantástica contemporânea, o desejo só pôde ser expresso em forma de mímese: havia uma originalidade ainda dependente das formas específicas. Daí surgem figuras como Terry Brooks e Robert Jordan, como representantes da geração pós-tolkieniana, ainda dependentes do modelo que o Professor lhes ofereceu. Ainda hoje há uma produção underground significativa desta categoria de literatura, ainda que sua significância para o leitor tenha entrado em declínio. Alguns chamam de “fantasia clássica”, que nada mais é do que uma fantasia pós-tolkieniana; vá a uma feira literária e você saberá do que eu estou falando. Orcs – ou trollorcs -, elfos – ou qualquer nome para a raça esbelta e afeita ao arco e flecha -, anões, a trupe toda e mais um pouco.

Em segundo lugar, nós tentamos apreender as ações que dão origem às formas. Uma vez que as formas são entendidas como tais através de um processo natural de amadurecimento, procura-se a maneira pelas quais as formas são originadas, numa mímese de ação.

Já em meados dos anos 90, fica claro que prolongar a Terra-Média sem seu genitor tem seu prazo de validade. Surge então uma geração de escritores de fantasia que tentam se distanciar das formas exauridas, emprestadas diretamente da matriz tolkieniana, transpondo o laço de mímese para os bastidores do processo criativo. Não importa a Terra-Média em si, mas o processo que deu origem à Terra-Média. Surge então uma geração de fantasia onde a criação de mundo torna-se o objeto de mímese, com suas línguas, sistemas econômicos, história, sistemas de magia, tudo amarrado por um racionalismo agressivo e pela necessidade de se fugir dos clichês pós-tolkienianos. Afinal, o próprio Tolkien personalizou alguns dos clichês fantásticos vigentes, então façamos o mesmo. A geração de Brandon Sanderson, Patrick Rothfuss e Steven Erikson criou mundos sem elfos e orcs, só que ainda com o anel-para-todos-governar pendurado no pescoço para dar sorte. Se a geração anterior era a pós-tolkieniana, esta é a geração-worldbuilding.

Em último ou nenhum lugar, para além da mímese da ação, está o reconhecimento de que toda a originalidade é derivada, como a linguagem é aprendida e depois desaprendida para que se possa utilizá-la com espontaneidade. A tomada de decisões é simplificada pela noção da falta de controle sobre o resultado das ações e pela internalização do que antes era uma ação consciente.

Espalhados pela linha histórica da ficção fantástica estão aqueles que transcenderam a mímese, cuja falta de originalidade das formas pode ser identificada, porém nunca assumida como falta de originalidade pelo leitor, uma vez que há um princípio mais espontâneo e ativo – vivo, eu diria – por trás das criações. Os contos de Lovecraft, A Torre Negra, Crônicas de Gelo e Fogo, e, é claro, o próprio professor Tolkien:  para além de orcs e elfos e Merlin e Lancelot e Edgar Allan Poe e Edgar Rice Burroughs, e ao mesmo tempo indissociáveis deles. Não que sejam melhores que os demais. Apenas amadurecidos ou insatisfeitos o suficiente para transpor a barreira da mímese ao reconhecer de que, ainda que não seja necessária, é inevitável.

Quem mantiver orcs e elfos presos num cercado terá sempre que alimentá-los.

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