O Mau Discípulo

o mau discípulo

Você pode até argumentar, e com razão, que a sinuca é um esporte sério, com competições internacionais transmitidas por canais esportivos, rankings, premiações e ídolos. Entretanto, para nós, mortais, as coisas que cercam a sinuca são cerveja, fumaça, música alta, de preferência rock’n roll e horas pouco ilustres da noite. Encontrar os amigos, falar merda, azarar as minas, empreender pequenos duelos de virilidade na mesa.

Na minha primeira tacada, meu companheiro de dupla me disse que eu não estava me posicionando corretamente. Ok, um toque válido, mas, porra, é sinuca. No segundo, disse que eu cometi um erro de julgamento, que deveria ter espanado a 8 ao invés de tentar matar a 12, causando uma situação propícia para os nossos adversários. Uma reclamação um pouco mais veemente. Passei a observá-lo, o modo como olhava para o carpete verde da mesa, com os dedos inquietos.

Na terceira tacada, veio o grito. Abri o peito. Porra, é sinuca. Porra de achar que é a porra da champions league, porra.

Ao final do jogo, ele veio até mim e disse “uma tacada, uma vida”. Disse que estava se lixando para a sinuca, para o resultado do jogo, ou mesmo para o quão bem eu ou ele estávamos jogando, ou para os merrecos oferecidos na aposta. No entanto, “uma tacada, uma vida”. A vida inteira numa tacada.

Disse a ele que iria economizar minha energia para algo mais sério e produtivo.

“Uma tacada, uma vida”.

Ele não era tão bom assim. Na verdade, todos éramos no máximo medíocres com o taco.

“Eu sou péssimo. Mesmo assim, uma tacada, uma vida”.

Hoje de manhã, enquanto lavava as louças, percebi que eu era um mau discípulo.

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