Sobre a Morte

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Se eu morri, é porque em algum momento eu estive vivo. Uma coisa que não esteve viva em primeiro lugar não estará morta quando acabar.

O que dá mais medo da morte são as coisas que a gente tem em vida que não vai ter mais depois que morrer. E como a gente mede o quanto a gente viveu? Pegue todas as experiências que você teve que você considera boas e que valeram a pena e tente medi-las. Horas, dias, meses, anos? E não é que isso passa tão rápido? E não é que o que virá ainda vai demorar? Parece que foi ontem que eu era uma criança. Parece que o ano de 2012 foi há eras atrás. Quando passou o tempo da penitência, valeu a pena, porque o tempo torna-se indistinto na memória. Quando passou o tempo das férias, parece que é muito cedo ainda para voltar. Queria fazer tantas coisas e, de repente, já é segunda feira.

Morte e vida são os dois lados da mesma moeda chamada EU.

Se eu causo minha própria morte, a vida se aproxima e expande. Se eu causo minha própria vida, a morte se aproxima e se expande, como uma moeda girando no ar sem nunca ser capaz de planar reta no ar, com um lado para baixo, e outro para cima. Causar a morte é pegar um pedaço do EU e jogá-lo fora pelo dia que virá. Causar a vida é deixar que a morte seja uma parte da vida diária.

Há uma diferença, entretanto, entre morte e óbito, assim como há uma diferença entre vida e nascimento. O óbito virá em algum momento; não é preciso adiantá-lo. A morte, a ideia irrefutável de que nossa pessoa e nossa personalidade e nosso corpo e todas as relações que formamos com o mundo irá deixar de ser, acompanha-nos desde o momento em que respiramos nossa primeira golfada de ar no hospital ou no banco de trás do fusca do nosso pai. Óbito e nascimento são eventos. Morte e vida são uma sequência infinita de eventos conhecidos como EU. A morte nega o EU, a vida abraça o EU.

Em cada dia dado, existe a hora de morrer e a hora de viver. Querer apenas viver causa um desequilíbrio, pois o sentido da vida é a morte; ao fim, a moeda cairá com a caveira virada para cima no momento do óbito e nunca mais será desvirada. Querer apenas viver adianta o óbito, o traz antes de seu tempo.

Enquanto escrevo, deixo que o desejo de viver me leve a escrever e a tentar mostrar que eu estou vivo. Enquanto escrevo, o desejo de garantir minha segurança, de manter as palavras à sombra, esperando pela quinquagésima nona reescrita, sob o julgamento de que não é bom o bastante, o medo de ofender as pessoas e de queimar o filme e de fornecer lenha para as fofocas sobre gente como eu, de me preservar, ter usura de mim para ter um pouco mais da vida para mim, esse EU está numa forca cujo alçapão deve ser aberto assim que eu apertar “Publicar Post”.

Dói. Pra cacete. Mas a moeda tem que girar. Vida sem morte é só meia vida.

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