Sobre a Desistência

desistir

Às vezes eu tenho impressão de que tem alguma coisa ali por trás que eu me recuso a ver. Às vezes tenho a impressão de que sou pauta de discussão no tópico “como não viver sua vida”. Talvez essa seja a razão. É provável que essa seja a razão. Se eu estivesse observando a mim mesmo anos atrás, diria isso. Esse cara não vai para lugar nenhum enquanto continuar se enganando.

Talvez essa seja a razão para a recusa da maioria das pessoas em reagir. Talvez essa seja a razão pela qual meu trabalho diário e sangrado gera nada mais do que uma folha de grama no meio do deserto. Que não é isso. Que, na verdade, eu sou muito ruim nisso. Eu posso montar uma justificativa articulada e factível em minha cabeça, deixar tudo para trás e partir para outra, partir para um lugar onde as coisas floresçam.

Para mais outro lugar. O quinto ou sexto lugar.

Só há um problema nisso tudo. Eu fiz uma promessa para mim mesmo: missão dada é missão cumprida.

Estou tentado a recuar. Toda minha vontade de viver está atrelada a uma ilusão. Se esta quebrar, eu quebro junto, e se eu levar a ilusão adiante, será inevitável. Estou sozinho; não que não haja ninguém ao meu lado, à minha frente ou atrás de mim; sozinho de uma maneira muito profunda. Largado no meio do mar com a minha promessa. É sensato recuar. É maduro recuar. Talvez recuar seja um ato de coragem, parar de ferir as pessoas à minha volta.

Só há um problema nisso tudo. Se eu recuar, eu darei uma volta em torno do meu próprio eixo e voltarei para este mesmo lugar, como fiz tantas vezes.

Só preciso de uma única vela para me fazer transpor a onda. Ela não vai chegar por um milagre da maré; tampouco meus braços têm força suficiente para remar através dela. E já vi coisa demais para acreditar que um deus virá e me guiará. E já quebrei a cara demais para acreditar que o universo conspira ao meu favor. E já vi gente morrendo na praia demais para acreditar que a pura persistência é o segredo da travessia. E já gastei muitas madrugadas ébrio para acreditar que viver minha vida remando em círculos é uma opção em cuja sobrevivência numa linha longa o suficiente de tempo será crível.

Só preciso de uma única vela. Estou tentado a recuar. Meus olhos estão abertos, o máximo possível quando a água salgada escorre da sua testa. Eu não sou diferente de ninguém.

Ela está ali, embaixo do meu braço. Não é uma vela, é um remo. O remo. O remo que eu talhei enquanto chorava a injustiça do mundo.

Este remo não é feito de persistência, teimosia, graça divina, destino, talento, felicidade, sentir-se em casa, músculos, força mental, estratégia, estudo, honra, seriedade, metodologia, princípios universais, gostos pessoais, compensação por esta massa suja e podre que me acorda todos os dias, frustação, trauma, condicionamento social ou fuga.

É feito de puro instinto de sobrevivência. Sujo. Lamacento. Bestial. Criminoso.

Se eu não for passar por essa onda no braço, vai ser no dente.

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