O Cemitério

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Todo mundo sabe que é uma péssima ideia construir qualquer coisa sobre um antigo cemitério indígena. Quem diria que haveria um no meio do campus da universidade, bem no gramado onde os alunos realizavam atividades ilícitas, como organizar shows de rock sem autorização e assembleias do tipo vamos-brincar-de-ser-gente-grande?

Ninguém sabia que era um antigo cemitério, nem mesmo os indigenistas do corpo docente que iam para as aulas com urucum nos olhos.

O que o reitor queria mesmo era parar com as atividades ilegais naquele gramado, quando teve uma ideia que lhe pareceu genial: mandaria construir lá um cemitério bacana, onde os grandes nomes da comunidade acadêmica, incluindo ele próprio, seriam enterrados, cheio de frases de Sócrates e estátuas clássicas e coisas do tipo. Um cemitério humanista.

Feito. Através das décadas, ilustres pesquisadores e decanos e artistas tiveram a honra de serem enterrados lá.

Quando as luzes se apagavam, eles saíam de suas tumbas e perambulavam o local. Ora, é isso que acontece quando você faz um cemitério em cima de um cemitério indígena. Pouco a pouco, a perambulação dos mortos-vivos se transformou numa espécie de grupo de estudos feito de zumbis letrados.

Havia uma lei concernente à magia negra que governava o cemitério: era proibido aos mortos deixarem o local. Isso os acadêmicos concluíram rapidamente. Havia um zumbi jurista, entretanto, que achou vaga a explicação, e responsabilizou-se por determinar as leis, que seriam gravadas numa das lápides a unha. Talvez houvesse um furo. O pessoal das humanas refletia sobre a morte, e era braço para lá e perna para cá. O consenso era impossível. Primeiramente, partiram do princípio de que deveriam aceitar sua condição de mortos; só que uma ala em especial formulou aquela condição como uma espécie de preconceito metafísico entre eles e os vivos. Foi proposto que deixassem sinais para os vivos para que notassem sua condição e os oferecessem coisas com as quais poderiam se dignificar, como livros e instrumentos musicais. Não deu muito certo. Quando o dia clareava e eles tinham que retornar às tumbas, os vivos assumiam que alunos depredadores haviam sido responsáveis pelas mensagens medonhas. Então uma facção da ala do preconceito metafísico, liderada por um zumbi professor de história, chegou à conclusão de que pedir dignidade não era o suficiente, pois haveria uma luta metafísica histórica entre vivos e mortos. Ele construiu sua argumentação referindo-se aos contos de vampiros da Europa Oriental e da Índia. Segundo a teoria, a função de todo zumbi seria assombrar os vivos, atacar os transeuntes e alimentar-se de sua carne de forma a afirmar sua não-existência e movimentar a história da pós vida. O jurista então os lembrou que era constitucionalmente impossível abandonar o cemitério, mesmo nas horas marcadas na tábua como “cadavericamente viáveis”. Esse grupo começou a bagunçar as reuniões. Enquanto isso, os engenheiros e geólogos tentavam realizar escavações para encontrar o tal cemitério indígena a partir de suas tumbas, uma atitude muito criticada tanto pelo jurista como pelas alas da inclusão cadavérica e da luta armada zumbi, com o argumento de que a escavação violaria os marcos místicos e que, além disso, revelava uma inferiorização a priori da classe zumbi atribuída à sua condição dada. O pessoal da escavação não quis ouvir essa ladainha e, como resultado, houve greve e barricadas nas tumbas.

Com a bagunça nas noites do cemitério universitário, o cacique mumificado acordou ao pôr-do-sol, ergueu-se da sua tumba profunda e fitou o corpo docente apodrecido no calor de um dos debates. Com uma batida de seu cajado repleto de crânios de lontra no chão, os zumbis perderam a consciência e começaram a andar em círculo, tornando-se escravos da além-vida. O cacique então pegou o saquinho com tabaco de dois mil anos de idade, enrolou, acendeu e observou como eram engraçadas aquelas roupas carcomidas dos caras-pálidas.

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