A Velha Roma Está Caindo

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Durante muitas horas eu ranjo os dentes, com um palito no canto da boca, tentando entender o que acontece com essas pessoas.

Na próxima esquina estão os cultistas do Culto do Nada. Não é o culto do Vazio; tampouco a negação das verdades absolutas, ou mesmo pessimismo. Não é nada. É se embriagar sem ver que se está embriagado, afastar-se da própria cabeça sem destino, deseducar-se sem nenhum horizonte de autoconhecimento, formular uma visão de mundo cujo único propósito é dar continuidade ao Culto do Nada. Não há nem poesia. Você poderá discernir o cultista do nada do boêmio pelo cheiro. O cultista fede. Não percebe que fede. Pensa que é igual a todo mundo, quando todos que passam por ele estão contorcendo as feições, até os bêbados.

No apartamento acima da esquina, de onde vem aquela luz azulada de um vídeo de streaming – pornografia ou séries -, está um dos Prisioneiros. Ele é uma pessoa sensível, danada e sabida, familiarizada com o mundo social e político e filosófico e artístico. Ele tem um emprego, ou um mestrado a fazer, provavelmente tem uma menina morando com ele, também sensível e sabida e filosófica e… uma Prisioneira como ele. Meninos bons aqueles, bem-educados, bem alocados no mundo profissional, provavelmente até têm um hobby que eles não consideram hobby, mas sim sua verdadeira vocação, como uma banda, um romance a escrever, um grupo de estudos zen-budista. Porém, uma vez diante de sua tela favorita, em suas mãos está sua droga favorita, que o neutraliza, protege, faz ignorar o fato de que todo o pessimismo e a tristeza que o assolam são uma historinha que ele criou para não ter que se gastar. Então ele se pergunta porque ninguém dá valor àquele hobby – que para ele não é hobby -, só ligam e perguntam sobre aquelas merdas que ele odeia e faz porque tem que fazer, e se droga para conseguir fazer, e chora sozinho, e se afunda mais em seus vícios em colaboração com seu cônjuge Prisioneiro, o que do lado de fora parece um relacionamento estável, e na verdade é, a não ser pelo fato de que está mais para um coleguismo de cela. A luz se movimenta, anunciando o terceiro capítulo da série, e já faz anos que não se sabe o que é estar sóbrio. Tudo para não se gastar.

Na sala comercial transformada em dojo estão os Turistas, cujo objetivo final é higienizar o mundo, limpá-lo daquela sujeira que uma vez fez parte de suas vidas, levando à cabo uma atuação interminável que se encaixa em seus ideais de pessoa boa, buscando ativamente a ignorância, cavando um buraco no chão, ignorantes do odor desesperado que cada um de seus olhares e gestos evidenciam.

Na mesa do bar, com bermudas vermelhas, sandálias de couro e calças frouxas estão os Guerreiros da Justiça, que parecem que não viram seus ideais provarem serem violentos e disfuncionais, ignorantes na previsibilidade de suas posições, contrariando cada opinião proferida em sua vida diária, exercendo cada um dos preconceitos denunciados, internalizando cada uma das burrices que fingem não compreender.

E os Bárbaros, as pessoas endividadas, as pessoas que não têm ilusões quanto à própria ignorância, as pessoas que preferem resolver as coisas na porrada, as pessoas que querem garantir o seu sem fingir que não, as pessoas que não sabem o significado de apropriação cultural, as pessoas preocupadas em ficar bombado, os casamentos que beiram a condição de transação comercial ou aliança entre casas rivais, essas criaturas que poderiam ser ameaçadoras, até revolucionárias, mas que eventualmente darão um tiro no próprio pé, pois na metrópole as coisas não podem ser resolvidas no soco.

Tentamos sair de onde estamos, e tudo que temos são os fantasmas que dividem a bebida conosco, ou os fantasmas numa tela (a internet é um acervo massivo de informações duvidosas para iniciantes em textos curtos).

A velha Roma está caindo.

One thought on “A Velha Roma Está Caindo

  1. Irado. O terceiro parágrafo tem uma densidade poética e uma proximidade muito forte, como se o narrador estivesse sentindo aquilo na pele, capturando uma essência… Fiquei ansioso por mais dessa força, mas os parágrafos seguintes foram mais secos 🙁

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