Cabeça Divina

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O calabouço era tão escuro que a tocha se assemelhava a um sol; ao olhar para ela, havia inclusive uma impressão de esperança.

Existem segredos que melhor ficariam enterrados.

Ao fim do lance de escadas, a luz revelou uma câmara circular com uma escuridão ainda mais profunda ao seu final. O guia – o portador da tocha – estendeu o indicador para a segunda escuridão. Um tremor percorreu meu corpo da planta dos pés aos cabelos como uma onda.

Existem limiares que, uma vez transpostos, não oferecem possibilidade de retorno.

Da segunda escuridão surgiu a criatura, alta como o mais alto dos homens. No lugar de sua cabeça havia a cabeça de um pássaro. Ela parou a uma distância pouco segura. O guia esperou que eu superasse o medo e fizesse a pergunta, que antes era uma só e logo se transformou em várias.

A Cabeça Divina girou o pescoço até ficar com um dos olhos fixos em mim, olhos amarelos de coruja. Todos os mistérios da criação e todas as criações tinham um sentido, um princípio, uma verdade que só os deuses conheciam. Tudo que era necessário para desvendá-lo era fazer a pergunta certa.

As chamas bruxulearam. O guia enfiou a mão no bolso.

“Cabeça Divina”, disse eu, “qual o segredo para a vida eterna?”

Num movimento rápido, o guia estendeu a mão para a frente, esparramando pequenos grãos dourados no chão.

A Cabeça Divina moveu o pescoço daquele jeito repuxado das aves, pôs as mãos na cintura, curvou-se e começou a ciscar.

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