Sobre a Criatividade

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Dois viajantes colocam suas mochilas de livros e filmes nas costas, as camisetas de suas bandas favoritas e partem para a viagem sem saber onde irão chegar. Depois de um início de caminhada feliz, deparam-se com uma encruzilhada onde a estrada se divide em duas. Há um poste com duas placas brancas em forma de seta, cada uma indicando o destino de cada caminho. Na placa da direita está escrito “Destino Imaginado”. Na placa da esquerda está escrito “Você Tem Certeza De Que Sabe Aonde Vai?”, junto à imagem de um crânio.

Um deles escolhe o caminho da direita. Em poucos quilômetros de caminhada, encontra um cavalo. Ele é branco, de raça, dócil e inteligente; está selado e pronto para ser montado. Ao montá-lo, ele parte a toda velocidade caminho adentro. No entanto, logo percebe que a beira da estrada nunca muda, repetindo-se. O cavalo está andando em círculos. Não demora para que o animal se canse e desabe. Também não demora para que o viajante, incapaz de percorrer todo o chão sem sua montaria, comece a passar fome e sede e também desabe.

O segundo escolhe o caminho da esquerda. Logo a estrada se transforma numa trilha pedregosa e sinuosa, que dá na entrada de uma caverna. Lá dentro, meninos esfarrapados com dentes amarelos o convidam a comer um cozido de cogumelos. As visões começam. Novos destinos para a viagem brotam das paredes da caverna. Imagens de perigo e beleza. Está tudo ali, um mundo virgem a ser explorado. Mas o cogumelo é venenoso. Logo a saúde do viajante definha, e como tantos outros meninos esfarrapados, ele sucumbe à doença. Seus restos mortais são empilhados junto aos dos outros meninos mártires.

Há um terceiro viajante, que ouve as duas histórias e, ao contrário dos demais, acredita nelas. Prepara sua mochila, incluindo, além dos itens costumeiros, um pedaço de giz. Inicia a caminhada e chega à encruzilhada. Toma o caminho da esquerda, o caminho da caverna. Uma vez lá, os meninos o trazem para dentro e ele consome os cogumelos, não sem antes fazer um risco no chão. Os meninos esfarrapados tentam dissuadi-lo. Dizem que atrapalha as visões. Ele ignora. Depois de amar e odiar os destinos que dançam na parede da caverna, ele olha para o chão. Quando vê vinte e um riscos de giz, ele então faz a pergunta: aonde vou?

A pergunta dissolve imediatamente o efeito dos cogumelos, evidenciando a podridão da caverna. Ele abandona o local e faz a viagem de volta até a encruzilhada. Toma o caminho da direita. Ao encontrar o cavalo, recusa-se a montá-lo. O cavalo empina e relincha, impaciente. Ele percorre o caminho a pé. Outros viajantes passam por ele à cavalo, fazendo-o comer poeira, zombando de sua lentidão. Aos poucos, a imagem de uma trilha oculta começa a se reavivar em sua mente, uma das visões que teve na caverna. Ele a encontra. Ela é pedregosa e logo se inclina, conduzindo para o topo de uma montanha.

Uma vez no cume, ele observa lá embaixo os cavaleiros cavalgando em círculos e pessoas entrando na caverna para nunca mais voltarem.

3 thoughts on “Sobre a Criatividade

  1. Bem legal, só não entendi o título.
    A não ser que empregou metáforas bem intensas, quase cogumelescas. Deve ser isso.

      1. O caminho seria a carreira artística; o cavalo, o mercado; a caverna, a introspecção, as experiências criativas, as vertentes eruditas, o underground; o giz é o conhecimento do processo, conhecimento válido; o topo da montanha… bem, o topo da montanha, qualquer que seja ele

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