O Processo

o processo

A mentira se torna regra universal.

O aparato destinado a despersonalizar a lei perde de vista seu propósito e, como todo organismo autônomo, empenha-se em reproduzir a sua própria existência ad infinitum.

Talvez haja interpretações demais sobre O Processo, uma tradição em adotá-lo como um adjetivo para caracterizar o arrastar oneroso, circular e maçante que caracteriza a concepção moderna de justiça, um nó górdio que enlaça a própria espada de Alexandre. Talvez essas interpretações excessivas sejam capturadas pela própria obra nesse mesmo Processo circular, dando continuidade a um romance escrito em fragmentos, onde não há nem consenso sobre a ordem correta dos capítulos.

Tudo isso pode contribuir para afastar a atenção do “brilhantismo sombrio”, do absurdo que brota das fendas escuras de um cenário racional e lógico, do pingar da insanidade num cômodo de funcionalidade que caracteriza o kafkiano. A religião sem deuses, o poder sem pessoas, o amor sem juramentos.

E aqui eu espero ser processado pelo meu anseio em esteticizar uma pretensa análise do romance, em adjetivar uma obra que é um enorme adjetivo, referenciável no dicionário, mas apenas compreensível pelas papilas gustativas e pelo canto do olho. Serei submetido a um julgamento por um tribunal escondido num cortiço e no apagar das luzes de uma igreja. E, no fim, aceitarei resignado a inevitabilidade do processo, incapaz de ordená-lo em minha cabeça, o que é o objetivo do processo em primeiro lugar.

De Kassio para os Kamaradas e Kompanheiras.

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