Libertação

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Na minha opinião, o pior problema da vida é a monotonia. A repetição. Ir todos os dias para o mesmo lugar encontrar as mesmas pessoas e fazer as mesmas coisas. Adotar as mesmas posturas em relação aos mesmos problemas que afligem os mesmos grupos do mesmo jeito. Assistir os mesmos programas de televisão, ler as mesmas notícias, mesmo, mesma, mesmo.

É por isso que resolvi me alistar. Eu sei que há um inimigo lá fora e já faz tempo demais que eu o ignoro.

Integrei-me no exército de libertação. Algumas pessoas dizem que não é um exército, que é uma milícia. Até mesmo alguns dos comandantes dos postos chamam de “força”. Para mim é exército. Acordamos bem cedo, corremos, vestimos nossa farda camuflada, limpamos nossos fuzis. Também lavamos o banheiro, cozinhamos, conversamos e mostramos fotos de nossas famílias uns para os outros.

Na minha primeira vez no front, foi muito diferente do que eu tinha imaginado. É cheio de sacos de areia e os camaradas fumam o tempo todo. De vez em quando alguém avisa no rádio e pegamos nas armas. Ficamos quietos, olhando para ver se há alguma coisa do outro lado do rio. Se alguém atira, atiramos também. Depois de alguns dias, novos camaradas chegam e então voltamos ao quartel.

Tem um homem que não tem um dos braços. Ele é da força, mas sempre está na beira da estrada jogando conversa fora, falando com quem passa de carro para ver se não é um espião. Dizem que um morteiro caiu perto dele no front; os camaradas até me mostraram o buraco. Dois mártires se foram naquele dia. Alguns dos camaradas querem ser mártires. Quando me perguntam, eu digo que sim, mas minha razão de estar aqui é outra.

É que na cidade tudo é monótono.

Aqui não é, mas a gente fica com medo o tempo todo. Pensa na mãe, no pai, no irmão, no cachorro. Mas se não fôssemos nós, o inimigo chegaria lá e não haveria mais família. Alguém tem que vir aqui e lutar.

One thought on “Libertação

  1. Bem interessante o conflito entre o motivo do narrador e o dos camaradas.
    O burguês x o proletário ideal soviético.

    A monotonia é um privilégio da família que está longe do front… Uma vez você disse que a monotonia e o “sofrimento de Primeiro Mundo” são ferramentas de sobrevivência da espécie. Uau. Estamos numa cela acolchoada.

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