Meus Pulsos

meus pulsos

Meus pulsos têm calos tão grossos quanto meus joelhos. As correntes que me prendem à parede já são uma extensão do meu corpo.

Até um certo momento da juventude eu provei como é estar a céu aberto. Quando mostrei minha verdadeira face, resolveram me prender. Estavam certos. Minha face não é boa de se olhar.

A cada semana vem um dos guardas me chicotear. Eles mudam mais ou menos de dois em dois anos, se é que meu cálculo de tempo é confiável.

Já faz tempo que perdi o controle da minha mente.

Eu conheci muito bem cada um deles, e apreciava as chicotadas. Era como um despertar, uma âncora no mundo real. Eles conversavam comigo enquanto o chicote cantava.

O último dos guardas era uma mulher. Depois de um ano de chicotadas bem dadas, daquelas que corrigem a postura, e muitas conversas, virei-me para olhar a sua cara. Era muito agradável de se olhar. Ela fez uma careta e me disse: “Eu odeio a sua cara.”

Então peguei a chave que estava no meu bolso, abri as algemas e saí. A falta do ferro no pulso me assustou um pouco. Saí caminhando devagar, com medo dos guardas, mas nenhum deles me impediu de deixar a prisão.

As nuvens carregando-se de umidade sobre as faixas alaranjadas do pôr-do-sol me encheram de emoção no peito.

De tanto que passei conversando com os guardas, não sabia mais conversar com ninguém.

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