Worldbuilding

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Depois de anos criando mundos fictícios para os mais diversos propósitos – primeiro como escape infantil, depois para jogos de RPG e para propósitos literários -, eu cheguei à conclusão de que o worldbuilding não existe. Se ele existisse, não haveria de fato distinção entre ficção e realidade.

Cada um de nós possui um amálgama de visões de mundo, uma mescla entre memórias de experiências passadas, evidências, informação adquirida em livros de história, mapas, relatos de terceiros, escrituras sagradas, que conectamos em nossas próprias mentes para formar aquilo que entendemos como realidade.

O que então diferencia a realidade da ficção?

Para o propósito desta análise, a ficção é o ato de forjar este amálgama de visões de mundo propositalmente, expressando-o através de diálogo, prosa, imagem, ou quaisquer ferramentas artísticas disponíveis. A distinção entre a ficção fantástica e a não-fantástica é mais discutível, como é toda a distinção estilística em arte: está mais na relação do leitor com a obra do que na obra em si. Há quem goste de chamar de ficção fantástica aquilo que não se passa na Terra; há quem goste de chamá-la daquilo que inclui elementos que contrariem a sua própria realidade.

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Quenta Silmarillion: o ponto de vista dos eldar sobre a história de Arda

O importante é que nós podemos descer esta escala de distinção da forma que nos apetecer e sempre concluiremos que a concepção de realidade, esteja ela dentro da ficção ou fora dela, sempre indicará um determinado ponto de vista. Isso não quer dizer que a realidade é um ponto de vista (correndo o risco de referir-se ao “anarco-solipsismo” tão popular hoje em dia), mas que o ponto de vista é o único acesso que nos é possível para ela.

O problema do worldbuilding na ficção começa quando ele pretende estar a priori do ponto de vista que o constrói. Toda a descrição de uma realidade é um ponto de vista; não o fundamento desta realidade, mas o canal de acesso a ela. Em outras palavras, um worldbuilding que comece antes da criação do ponto de vista que o descreve já é em si um ponto de vista. O efeito disso é que estamos então demasiado conscientes da mão que cria o mundo antes mesmo que qualquer ponto de vista – normalmente de um personagem – seja criado.

Conceber o worldbuilding como uma entidade separada e absolutamente lógica apenas levará à criação de um ponto de vista simplista. Para as crianças, talvez funcione.

One thought on “Worldbuilding

  1. Acho que você foi muito além do essencial… Epistomologia e ontologia do worldbuilding, a essa altura do campeonato?
    Quando critico algum livro, por exemplo, por ter pouco worldbuilding, quero simplesmente dizer que o cenário foi pouco elaborado; que esperava ficar sabendo mais sobre o mundo inventado ou como queira chamá-lo; que queria mais descrição, pois a presente deixou ideias pouco amarradas na minha cabeça; e por aí vai.

    Em outras palavras, acho que esse palavra é muito mais usada como sinônimo de “cenário” (um dos elementos primitivos da narrativa, junto com personagens e enredo). Na fantasia, o cenário é (nitidamente?) um mundo alternativo ao nosso. E por isso o worldbuilding é bem mais exigido na fantasia do que em histórias que se passam no nosso mundo, onde já foi feito o worldbuilding antes da leitura, simplesmente pelo fato de estarmos vivos.

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