Um Conto Lovecraftiano

lovecraft

Escrevo este relato com a última gota de lucidez que provavelmente me resta, pois nada mais poderá me salvar, nem mesmo minha fé. Ainda assim, seguro o crucifixo que pende de meu pescoço tão forte que já posso sentir o líquido quente escorrer pela mão esquerda. Deus não irá me salvar, nem nada que fizer daqui em diante. Uma vez que se vê aquilo que eu vi, nenhuma mente é capaz de se sustentar.

Tudo começou numa sexta-feira à noite qualquer. Cansado da monotonia dos meus dias na firma de advocacia e de todas as coisas boas que parecem não acontecer para mim, desloquei-me cabisbaixo para o Bar do Lago, um estabelecimento escuro, com uma boa área ao ar livre onde perdedores como eu se embriagam e fumam sem precisarem ser vistos. Logo que desci as escadas que levavam ao salão principal, deparei-me com os grupos de mulheres jovens, de pernas alongadas à mostra, que pareciam estar ali apenas para me lembrar de minha própria inaptidão para o cortejo. Fingi não as notar, comprei minha bebida e caminhei a passos largos para a área externa. Suspirei e dei um primeiro gole.

Depois do terceiro copo, eu já estava quase disposto a caminhar, como sempre fazia, até que esbarrasse em alguém com meus passos de bêbado; no entanto, continuei sentado numa das sombras, remoendo angústias. Naqueles momentos, um pensamento sempre voltava à minha atenção: retomar minhas práticas religiosas, abandonadas no furor juvenil que me levou à prática jurídica, a cada dia desenhando-se em minha biografia indigna de nota como o maior dos erros. Em meio a este turbilhão depressivo, uma moça jovem, de salto alto e vestido negro, pele alva e cabelos um pouco ressecados sentou-se ao meu lado e me fitou em silêncio. Minha surpresa foi grande, uma vez que nunca uma mulher atraente havia se aproximado de mim naquele ambiente, parcialmente coberto pelas sombras, vergonha e o rosto de camponês com o qual fui amaldiçoado. Minha embriaguez fez-me corrigir a postura e fitá-la.

–  Oi – disse eu.

A mulher continuou em silêncio por alguns instantes, até tirar um cigarro da bolsa e me perguntar:

– Você tem fogo?

Enquanto tateava meus bolsos, percebi que ela segurava um cigarro enrolado. Maconha, a erva dos derrotados.  Ainda que eu não fosse nenhum exemplo de êxito em minha breve existência, aquele era um limite que eu nunca havia transposto, como a preservar o fiapo de dignidade que ainda me restasse. Como esperado, ela deu um trago e estendeu-me o cigarro. O cheiro era nauseante. Com uma flexão das sobrancelhas negras e um meio sorriso de batom vermelho-escuro, ela insistiu.

– Obrigado – disse eu – eu não fumo.

– Você já fumou?

– S-sim… mas…

Então ela me prendeu com os olhos. Nem mesmo a Anette de minha adolescência, a primeira escara que meu coração conhecera, fora capaz de me prender como o olhar daquela moça.

– Fume como se não houvesse o amanhã – disse ela, e o tom de voz estava mudado.

Incapaz de resistir, dei meu primeiro trago. A doçura da droga revoltou minhas entranhas.

Não me sinto capaz de descrever o que seguiu. Dizer que minha memória falha em relação às quatro horas que se seguiram seria desonesto de minha parte, e tudo que menos desejo neste momento, prestes a deslizar para o abismo da demência, é faltar com a honestidade. O que posso dizer é que minhas recordações dançam entre o calor da pele da moça, o gosto da droga e alguma coisa. Lembro-me também da textura sintética do estofado de um carro barato, do gosto de uma bebida fraca e gasosa misturada ao gosto de batom.

Tinha os pés descalços na grama úmida quando a lucidez voltou, e se um Deus existisse neste mundo teria borrado aquelas memórias também, pois elas foram a derradeira causa de minha presente internação. Pois além de mim, uma fogueira estava acesa à beira do lago, onde dançavam outras mulheres tão belas e estranhas quanto minha companheira anônima. Nas mãos traziam símbolos completamente assimétricos, feitos de arame retorcido e enegrecido. Havia relatos de práticas semelhantes, uma revisão do paganismo europeu praticado por mulheres, que chegavam aos meus ouvidos por colegas de trabalho. Tais histórias sempre haviam me causado indiferença. Entretanto, ao ver a dança selvagem e desordenada, onde roupas eram rasgadas e pés femininos descalços chocavam-se contra as brasas, soube que aquilo não era uma revisão pagã, nem mesmo uma ocasião festiva. Os rostos estavam furiosos.

Em torpor, observei a cena, ainda tonto com as drogas em meu sangue, quando duas delas arrastaram-me para a fogueira. Estava fraco como uma criança; minha resistência não significou nada. As mulheres me despiram e começaram a me tocar, obviamente tentando preparar-me para algum tipo de ritual. Para minha surpresa, meu corpo respondeu, algo muito improvável em meu estado ébrio e temeroso. As outras prosseguiam a dança, entoando palavras que soavam como latidos de cães.

Foi quando ergui meus olhos para o limiar da luz, e daria um dos dedos de minha mão para que não o tivesse feito.

Por trás do círculo de mulheres, uma figura escura, como uma sombra dentro da sombra, acompanhava o ritual. Tinha a altura do mais alto dos homens, com um crânio alongado onde brilhavam dois pontos negros, como duas pedras de ônix refletindo a luz da fogueira. Chacoalhei a cabeça, desviando a atenção tanto da imagem como do toque das satanistas, e levantei o olhar novamente, desejando que fosse apenas um fruto de minha imaginação. Entretanto, ao fitar novamente o ponto além do círculo, vi a mesma silhueta erguer um braço com dois dedos. Ao fazê-lo, a cantoria e a dança pararam.

Desesperado, tentei fugir, mas fui atordoado com um objeto pesado. Logo recobrei a consciência, mas minha fraqueza dobrara. Uma a uma, as mulheres copularam comigo, além de me ferirem de um modo que nunca deveria-se ferir um homem. Ainda que o sofrimento daquele ritual pudesse criar talhos em minha alma que nunca mais seriam cicatrizados, eu só notava a figura nas sombras; sem ouvir um som ou ver outro gesto sequer, sentia-a sugando-me, sua existência sendo alimentada pelas dores e mutilações que sofria, e sentia-a em meu sêmen quando ele, vez após vez, era vertido nas mulheres.

Ele me usara para dar continuidade à prole demoníaca que muitas daquelas moças viriam a parir.

Alguém bate na porta do quarto. É hora das injeções, e sei que o homem pálido que as aplica têm em seu sangue algo que não é deste mundo. Eu sei. Eu posso sentir. Eles estão por toda a parte. Não há refúgio. E alguns deles são meus filhos. Uma escuridão infinita povoa meus sonhos, uma escuridão da qual a ausência de luz é apenas uma miragem. Não deixem esta verdade morrer. Espalhem esta verdade. Espalhem! Esp…

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *