O Preço das Coisas

Title: Mushroom Compost
Description: Adding mushroom compost to garden borders at RHS garden Wisley, Surrey

Sebastião era um daqueles rapazes que gastava a maior parte do tempo sentado ou encostado na cerca, sempre com mais dois ou três rapazes, observando o movimento, fingindo saber o que queria e o que não queria, mascando fumo, reduzindo qualquer transeunte a um objeto humorístico de autoafirmação.

Numa tarde quente, o senhor Cara de Tábua passou por eles puxando um cavalo novo pela rédea. Os amigos de Sebastião começaram a fazer troça da barriga protuberante e da velhice do senhor – que nunca os atingiria; eles eram os que superariam a morte –, mas o senhor Cara de Tábua daquela vez devolveu o sorriso. E com razão: o cavalo negro que puxava era o animal mais belo que Sebastião já tinha visto passar pela estradinha. A partir de então nunca deixou de desejar um cavalo como aquele que o senhor Cara de Tábua tinha arranjado.

Como o vagabundo que era, Sebastião concluiu que a melhor estratégia era dizer aos amigos que ele teria um cavalo igual àquele. Os outros fingiram não só que acreditavam que ele o teria, mas que eles próprios também teriam; afinal de contas, mascar fumo e falar mal da vida alheia na cerca conduz à realização de todos seus sonhos juvenis.

Quando os cavalos não vieram, os amigos de Sebastião simplesmente esqueceram deles, passaram a cobiçar outras coisas que não alcançariam. Sebastião, no entanto, não esqueceu. Alguma coisa tinha acordado nele. Como o vagabundo que era, Sebastião concluiu que ele iria roubar o cavalo do senhor Cara de Tábua. Com um pouco de coragem e um facão para fins de intimidação, ele o fez. Saiu cavalgando o enorme corcel negro pela estradinha até chegar aos amigos. Para sua surpresa, eles não se impressionaram; lançaram olhares que, para os inocentes, pareceriam desinteressados, mas Sebastião passara tempo demais com eles para acreditar: eram os mesmos olhares de escárnio que lançavam aos transeuntes.

Com o tumulto causado pelo furto, Sebastião teve que se mudar da vila. Chegou a outra similar à de sua nascença, e logo soube que o cavalo precisava de muitos cuidados para se manter brilhante e saudável. Arranjou um trabalho numa plantação de cevada, onde passava o dia ceifando para dar conta da enorme necessidade de comida do animal. Logo começou a odiá-lo. Num dia especialmente ruim, onde todo seu trabalho foi arruinado por uma tempestade, ele cortou a garganta do corcel. Ao vê-lo morrendo, no entanto, percebeu que o desejo pelo corcel continuava. Talvez houvesse outra maneira.

Como o homem trabalhador que agora era, decidiu que o melhor a se fazer era ter seu próprio sítio, onde pudesse guardar dinheiro. Gastou anos buscando uma terra, depois lavrando, depois acossando pobres rapazes que eram como ele tinha sido, até que juntou dinheiro para comprar um corcel negro semelhante ao que tinha roubado e depois matado, e o corcel necessitava não só de muitos cuidados, mas precisava de proteção contra rapazes que eram como ele tinha sido e podiam, a qualquer momento, roubar o animal.

Uma década mais tarde, a exaustão o tomou. Sebastião vendeu o corcel, vendeu o sítio, pensou na sua vila natal; não podia voltar. Se voltasse, seria enforcado, pois num lugar pequeno e miserável como aquele as memórias ficam. Tinha que haver outra maneira; uma maneira de ter seu cavalo sem pagar o preço.

Como o homem confuso que agora era, decidiu que o melhor era arranjar dinheiro fácil. Então ele ia de vila em vila, concebendo pequenos golpes e enganações, tentando seduzir moças ricas, e para cada moeda que ganhava numa vila ele perdia em seguida fugindo e reunindo recursos para novos golpes. Aos poucos, sua alma esvaziou e ele mal lembrava do corcel negro.

Sebastião então fez a única coisa que restava para pessoas como ele: fez a viagem até o desfiladeiro ao norte, onde tomaria uma garrafa de vinho, cantaria canções da juventude e depois se atiraria. No meio do caminho, passou por uma fazenda, onde cavalos e potros de raça corriam pelo cercado. Ele não tinha mais nenhum desejo. Foi quando viu um de seus velhos amigos de cerca caminhando entre eles, com boas botas e um bom chapéu. Teve que parar.

Ao conversar com seu amigo, este lhe disse: “De tanto tempo que passei naquela estradinha vendo os tropeiros passarem, aprendi a gostar do cheiro da merda do cavalo. Agora passo o dia limpando o estrume e transformando em adubo. Vendo adubo e os potros para um bando de fazendeiros mal-humorados. É um trabalho de merda, mas do que eu gosto mesmo é do cheiro da merda.”

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