Sobre a Sorte

Sorte

Sozinho, o cão selvagem perseguiu o antílope pelo deserto e o venceu pelo cansaço. Ao voltar à matilha com um enorme pedaço de carne na boca, tornou-se uma lenda.

Três daqueles filhotes cresceram e foram ao mesmo local, esperando encontrar seus próprios antílopes. Lá havia um velho cão mastigando as raízes dos espinheiros. Ele disse: “Desistam, jovens. Não há mais antílopes aqui. Contentem-se com estas raízes.”

“Mas e o lendário caçador de antílopes, aquele que nos trouxe a carne da nossa infância?”

“Um em um milhão.”

Os três ficaram à beira do deserto, esperando. Logo o velho cão caiu duro, cheio de espinhos na boca, e virou a refeição dos abutres.

O primeiro dos três cães disse: “Eu espero que passe um antílope logo.”

O segundo disse: “Eu acredito que logo um antílope vai passar por aqui.”

O terceiro disse: “Eu posso tanto conseguir como falhar.”

Assim ficaram, espreitando o deserto monótono.

No segundo dia, o primeiro dos cães disse: “Não aguento mais esperar”, e começou a mastigar as raízes do espinheiro, ganindo cada vez que a língua era perfurada.

O segundo disse: “Eu tenho fé que ele passará por aqui.”

O terceiro disse: “Quando ele passar, tenho que estar preparado.”

No terceiro dia, o primeiro dos cães disse, com a língua cheia de espinhos: “Sejam realistas. Aquilo foi só um sonho de filhote.”

O segundo disse, olhando para os céus: “Deus dos cães, por que me abandonaste?”

O terceiro disse, com os olhos fixos no horizonte: “Calem a boca vocês.”

No quarto dia, o primeiro dos cães havia aberto um buraco na areia, atrás das raízes mais suculentas, e disse: “Vejam. Meu pragmatismo rendeu-me frutos. Agora eu tenho as melhores raízes.”

O segundo disse: “Tem razão. O antílope era um símbolo, um sinal para que encontrássemos as raízes mais suculentas. Glória ao deus dos cães! Agora, dê-me um pouco dessas raízes”, e pôs-se a mendigar.

O terceiro nada disse e não se moveu, pois sabia que o momento em que desviasse os olhos do deserto poderia ser o momento em que o antílope passaria.

No quinto dia, uma sombra surgiu no horizonte. O terceiro cão latiu para os outros dois, mas eles tinham as cabeças enterradas na areia, buscando ferozmente as raízes. Então, correu solitário e, como na lenda de sua infância, abateu o antílope e trouxe de volta mais carne do que seria capaz de consumir.

Anos depois, havia um buraco enorme à beira do deserto, onde dois cães velhos se mordiam por fiapos de caules. Um cão jovem foi até eles e disse: “Eu vi o amigo de vocês trazer um antílope inteiro do deserto quando era filhote, e nada me fará esquecer aquilo. Vim aqui para caçar o meu.”

Os dois cães velhos, sem tirar os olhos da areia, disseram: “Um em um milhão.”

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