O Festival

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As três árvores antigas dispunham-se como vértices de um triângulo. Para compor suas arestas, os sacerdotes amarraram cordas à meia altura, com tecidos coloridos pendurados em sua extensão. Era proibido entrar no triângulo a não ser que se quisesse oferecer a própria vida em sacrifício.

Era apenas morte, nada mais.

Os homens tinham as faces cobertas com capuzes cinzas e negros, sempre buscando as sombras e a névoa; as mulheres, parcialmente desnudas, ignorando o frio, bebiam em copos muito maiores que suas mãos e comiam a carne dos braseiros sem a mínima cerimônia. Cantavam, dançavam, abraçavam-se. Do limiar das árvores, os homens vagavam e as observavam.

Não havia um traço sequer de honestidade. Era apenas o festival.

As mulheres que chegavam até o limiar eram tomadas pelos encapuzados sem resistir, para depois retornarem às suas companheiras. Os homens que deixavam o limiar eram despidos e lavados pelas mulheres e levados até o triângulo, onde esperariam até o fim do festival para entregarem suas vidas.

Na tarde do último dia, quando os encapuzados mal se escondiam além do limiar e as libertinas mal suportavam-se de pé, o céu escureceu, seguido por uma tempestade de fogo. A fumaça escureceu os céus e as aves voaram em enormes bandos mistos, contra e a favor do vento. A terra tremeu sob os pés e fendas surgiram, tragando os totens e todos aqueles que esperavam pela morte no triângulo. As mulheres correram em busca de seus filhos e os homens sacaram suas facas.

Em seguida, veio a chuva, longa e pesada, porém sem os ventos ou trovões. As fendas encheram-se de água, trazendo à tona corpos e caules. Um homem e uma mulher construíram uma canoa a partir de uma árvore magnífica, que havia perdido suas raízes na tempestade, e navegaram pelos novos canais. Ele tirou a capa com o capuz e a deu para a mulher, que vestia nada senão um trapo sobre as vergonhas. Chegaram a novos rios e viram escombros de um mundo que não voltaria a ser o mesmo.

Era apenas o amanhecer.

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