Leão Vermelho

leão vemelho 1

Unenamú caiu de joelhos. A mulher sorriu, rasgando a tez com as rugas. Ela tomou a faca escurecida do seu lado direito, raspou uma pedra em sua lâmina sobre o tufo de palha até que pegasse fogo, enchendo a caverna de fumaça e do odor do irnanú.

Unenamú ergueu os olhos úmidos para a Manisarél.

–  Eu me coloco nas mãos da profecia – disse ele.

– Assim está feito.

Unenamú fez força para não tossir. A mulher de vermelho desfez as rugas e o encarou.

– Há um kornú sentado sobre suas costas, pequeno e triste – disse ela.

Unenamú sentiu o peso do espírito nos ombros. Ele sabia. Era a razão de estar ali.

– Seria isto o fardo de um chefe?

– O fardo de um chefe são seus comandados, nada mais. O kornú foi imposto a você.

Unenamú sentiu-se cansado demais para ficar raivoso.

– Quem?

– Você já sabe quem. Todos os corações estão agitados e voltados contra você.

Ele pensou em todos os clãs. Era inverno. Fazia dois meses que ele e todos os outros viviam escondidos nas cavernas e casas sob peles grossas, onde podiam confabular em silêncio.

Seu medo de perder o poder sobre os clãs o impedia de ver com clareza.

– Leão Vermelho, por que veste estas peles? – perguntou a Manisarél.

Unenamú olhou para os próprios ombros, para a pele de lobo cinzenta.

– Aí está sua resposta – disse a mulher, sorrindo com dentes escurecidos.

– Eu a queimarei – disse Unenamú, segurando a pele com a mão direita.

– Isso apenas incitará o inevitável. Seus inimigos ficarão ainda mais corajosos ao sentirem o fogo em suas próprias peles. Vocês, Nunár, estão destinados a liderar nosso povo. Está dito, está escrito. Mas o que acontecerá quando nosso povo não for mais um povo?

– Então não haverá mais os Uremiték.

– Também está escrito que enquanto a vingança contra Ele não for realizada, nosso povo subsistirá pelo ódio.

– O que quer dizer?

A Manisarél inclinou-se para frente, parecendo divertir-se com a angústia do chefe.

– Quando nosso povo não for mais um povo, será um exército.

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