O Jogo

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Era um teste. Um jogo. Não havia razão para caçar naquelas condições, com o vento gelado rasgando tudo que encontrasse nas fendas dos montes, trazendo em seu encalço flocos de neve desvairados. A brancura ofuscava. As cabras selvagens haviam descido para o sul. Os Uremiték tinham tudo o que precisavam nas cavernas. Aquilo era um jogo.

Agachado ao lado de Unenamú estava o jogador. Seu nome era Anarvú. Era um jovem falastrão, porém fiel ao seu líder. Segurava o arco firmeza, a flecha já preparada na mão direita.

Abaixo deles uma mancha escura sobre um fundo branco devorava a carcaça de uma cabra. Quando Unenamú estava prestes a encaixar a flecha, a sombra parou. Os dois caçadores se abaixaram. A sombra saltou pela neve e desapareceu. Eles se ergueram novamente e relaxaram. O frio tornou-se mais evidente.

– Devo ir atrás dele, chefe? – perguntou Anarvú.

– Ele irá voltar.

Anarvú guardou a flecha na aljava presa à cintura e não fez mais perguntas.

Ele daria um bom líder. Uma pena que nasceu Oreák.

Com o cair da luz, eles se encolheram atrás de uma reentrância de pedra que os protegia do vento. Compartilharam uma dose de aguardente. Mesmo que fosse possível, não fariam fogo. Eram as regras do jogo. Uma caçada gelada e sem propósito.

– É bom estar aqui na montanha, chefe – disse Anarvú. – Este inverno não está dos melhores. Não se conta mais histórias ao redor do fogo. Só se fala…

– Eu sei muito bem disso. Não se preocupe. Às vezes acontece. Quando a primavera chegar, todos estarão ocupados demais para conspirar.

– Então quer dizer que o senhor ouviu falar da sagração?

Unenamú agitou-se em seu lugar. Uma sagração em pleno inverno, sem sua presença, era um passo além do que ele esperava.

– Do que você está falando?

– Houve um sacrifício noturno há uma semana atrás. Fui com meu irmão. Não sabia do que se tratava. Eram os Okorók que a comandavam, junto com os Koromuskúr e alguns de minha própria casa. Cantamos o nome dos Treze e o chefe dos Lobos bebeu o sangue de um cordeiro.

– Quem bebeu?

– Okoronamú, chefe. O garoto mais velho dele também.

Unenamú apoiou o queixo nos joelhos. Não podia ver nem três varas à frente. Decidiu que pouparia a vida de Anarvú.

– Eu te digo isso, chefe, porque é minha obrigação e porque eu não gosto dos Okorók – disse Anarvú. – São imprevisíveis e violentos. Eu juro pelos Treze que só cantei seus nomes para não chamar atenção. Minha lealdade para com o senhor é maior do que…

As palavras de Anarvú perderam-se no vento. O leão que vivia dentro de Unenamú acordou. A Manisarél falara a verdade. Não havia nada a fazer senão matar todos, na frente de todos, de um jeito mais ruidoso do que uma sagração de inverno.

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