Sangue Ruim

sangue ruim

Parte 1

Parte 2

A reunião fora marcada para o amanhecer do dia seguinte, mas só um tolo confiaria numa alcateia. Unenamú não conseguia relaxar. O olho do véu – um círculo de galhos curvados com penas e tufos de pelos dos seis animais nobres das Varekvaké – balançava no teto da caverna. Namevé, sua esposa, roncava ao seu lado com o cenho franzido, como se as preocupações que haviam discutido antes de deitarem prosseguissem em seus sonhos. Unenamú cochilou e sonhou com um abismo negro. Acordou novamente. Anarvú caminhava além da divisória, guardando seu chefe como lhe haviam requisitado.

Unenamú não podia morrer por uma razão mais forte do que a simples vontade de viver. Os Unenák não conviviam com outros de seu próprio clã senão as mulheres e seus próprios filhos. Havia matado seu irmão ainda jovem num duelo tradicional de lança e escudo. Àquela altura, Namevé já deveria ter dado a luz a um herdeiro seu. Outra preocupação. Cansado dos próprios pensamentos, Unenamú foi embalado no balançar do olho do véu.

Um silêncio o acordou. Ele se ergueu. Do silêncio surgiram vozes e luzes além da divisória de lã. Unenamú tomou a espada e se ergueu, tentando não acordar a esposa.

– Anarvú! – chamou ele.

Os passos se aproximaram. Olhou para trás e viu Namevé de olhos arregalados, encolhida na cama.

– Sua arma – ele disse. Ela não reagiu.

Um grupo de Okorók, liderados por Okoronamú, entrou na carverna, munidos de tochas, machados e lanças. Junto com eles vinha Anarvú. Quem o Leão Vermelho poderia liderar se nem aquele que acolhera em sua proteção lhe prestava lealdade?

– Por quê? – perguntou Unenamú, fitando os olhos negros de Okoronamú.

– É o que manda a profecia – disse Okoronamú.

Uma dúzia de lâminas perfuraram o corpo de Unenamú, sem crueldade ou excesso de força. Ele caiu. Ouviu os gritos de Namevé atrás dele e um outro silêncio. Os Okorók retiraram-se, Anarvú por último, fazendo questão de cuspir no antigo chefe.

Enquanto a vida abandonava o corpo de Unenamú, uma criança foi até ele. Tinha os olhos inteligentes demais para sua idade, que não deveria ser maior que doze estações. O garoto o encarou. A mente de Unenamú estava turva demais para reconhecê-lo.

O garotinho apontou um dedo para ele e disse:

– Nasoporvú.

A palavra matou o Leão Vermelho.

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