Cinismo

cinismo

Cinismo. Ironia. Autorreferenciação. Tão ruim que chega a ser bom. Micronarrativas. Desespero silencioso. Desconstrução. A mentira enquanto regra universal. Olhe, isto é uma postagem num blog, e eu sou uma pessoa digitando num computador.

Whatever.

Quando todas essas coisas se tornam o modus operandi da produção de conhecimento e da produção artística, as possibilidades individuais se ampliam e, ao mesmo tempo, não há chão emocional para se apoiar na busca por estas possibilidades.

O problema da diagnose da pós-modernidade é que não é apresentada uma solução para o esvaziamento do espírito. As possíveis soluções são transformadas numa forma de micronarrativa, que acaba se tornando violenta, ou então novamente esvaziada. Uma forma peculiar de apego que remonta a uma fase anterior, de determinismo religioso, patriótico, científico ou político focado num âmbito reduzido, autorreferenciado; ou um impulso desconstrutivo esvaziado de sentido, adormecendo emocionalmente aquele que o pratica.

Da mesma forma que o capitalismo incorpora até os discursos que o combatem, a pós-modernidade transforma o diagnóstico de si própria em mais uma forma de cinismo. Categorias como o New Sincerity ou o Estágio Integral de Ken Wilber, propostas cujo objetivo é transcender a pós-modernidade, acabam se tornando outras formas de micronarrativas das quais o cínico médio pode escolher enquanto meio de salvação da própria alma, com um prazo de validade limitado.

O lado positivo da desconstrução não pode ser abandonado. As revelações da pós-modernidade são fruto de inclusão, acesso à informação e desenvolvimento da produção intelectual e artística. Qualquer tentativa de estancar a falta de sentido proveniente do impulso desconstrutivo apenas criará ignorância voluntária e violência, sem nunca tocar o ponto que é do interesse da transcendência da pós-modernidade: o reencontro consigo mesmo, com as próprias emoções, com as pessoas ao nosso redor, a necessidade de acreditar naquilo que si diz e que se faz, a necessidade de abandonar o impulso autodestrutivo.

A transcendência do cinismo é vulnerável à esfera de movimento intelectual, artístico ou espiritual. Uma vez elevada a este patamar, é imediatamente vítima do próprio cinismo que ela tenta erradicar, sendo desconstruída, transformando-se em micronarrativa violenta ou perdendo qualquer força de movimento.

O pós-cinismo apenas pode ser individual. O reencontro com a inocência – que é uma das curas para os males da pós-modernidade -, quando elevado a uma categoria – aplicável, ensinável, delimitável – é imediatamente consumido pela maré irreverente e autorreferenciada, senão por aquele canto da própria mente que diz “você está se enganando”, ou por aquelas pessoas que dizem “tanta merda acontecendo no mundo e você preocupado em ficar bem?”. Se houvesse uma forma eficaz de externar a transcendência da pós-modernidade, seria identificar o cinismo e deixá-lo em paz, longe de sua intuição quanto ao significado de estar vivo.

2 thoughts on “Cinismo

  1. Estou tentando me lembrar de algum personagem de livro que seja cínico, porém simpático. Não me lembrei de nenhum—minto, me lembrei do narrador do Apanhador no Campo de Centeio…

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *