Pergaminho de Domingo à Tarde

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“Boa noite e bem-vindos a mais um Aethewulf De La Fontain Entrevista. Hoje temos aqui conosco Sigeric Chardon, chefe de desenvolvimento na Holística Ternure e o homem por trás da Iniciativa Administrativa de Segurança Dinâmica. Um assunto polêmico para tempos polêmicos eu diria, Siggy.”

“A polêmica está na incapacidade das pessoas de verem o que está acontecendo.”

“E como tu descreveria o que está acontecendo?”

“Tudo começou com Xicoter, como nós sabemos. Pode parecer uma magnepressão velha, ainda assim a primeira delas a realmente deixar o dispositivo e atingir a realidade manifesta.”

“Eu diria, Siggy, que realmente aquilo me assustou quando eu vi pela primeira vez. Parecia uma mistura entre uma caneta magnepressa e um junco.”

“Isso. A noção de segurança dinâmica começa, na verdade, depois do Cão Gaulês. Ali nós pudemos ver as pessoas se ferindo.”

“É uma pena, não é, bróder?”

“Eu sou muito atacado, Aethewulf, mas eu e muitas pessoas não acham normal jovens de 40 anos começando a vida com os dedos decepados.”

“Eu devo confessar, Siggy, que comprei o Cão Gaulês por curiosidade. É fascinante a tecnologia. Acho que sou dos velhos tempos, quando uma coisa digital era o melhor que tínhamos. He-he.”

“Estou junto contigo, parça. Mas desde o Xicoter que a preocupação e a iniciativa surgem, e só agora que a atenção devida aos perigos da magnepressão chegou nas holísticas.”

“Muitas pessoas, especialmente da Iniciativa Racional, creem que o seu business fere diretamente o Princípio da Ignorância.”

“E para elas eu respondo da mesma forma: o Princípio da Ignorância só é válido quando se contempla a garantia de autorreferenciação do próprio Princípio. Pessoas andando com armas brancas nas ruas e se mutilando por defesa pessoal quebra a autorreferenciação. É uma questão de protocolo.”

“Mas a pergunta é: e as ações da Iniciativa de Segurança Dinâmica?”

“São egoístas e individualistas em seu cerne.”

“Muitas acusações de intenção de políticas públicas.”

“He-he. As pessoas estão lendo pergaminhos demais. Não é política pública, é business egoísta.”

“Então como você defende os atos de três semanas atrás?”

“Você quer dizer no Jardim? Oui. Aquilo foi um sujeito que entrou em nossa festinha. Estávamos embriagados, e ele sacou o Cão Gaulês no meio de uma conversa amigável. Para mim e meu parça Gundovald pegou mal. Ele invadiu nossa ignorância. Descemos o cacete nele, e do jeito certo, com madeira. Não houve intenção política. Foram os comentários que criaram essa ideia. Teve maluco que até disse que viu uma tatuagem da ONU em nós. He-he. Pergaminhos demais na cabeça dessas pessoas.”

“Sim, claro, eu concordo que brandir um machado com pessoas de fora é uma falta de sacanagem, mas e a diretiva da autorreferenciação móvel?”

“Esta é uma desculpa esfarrapada de pessoas que não estão em contato com o próprio poder.”

“Massa. Mas daqui para frente será diferente então?”

“Na Holística Ternure nós só usamos magnepressão para fins sexuais e coerção física.”

“Não é o que dizem.”

“É um beco sem saída para essas pessoas. Como eu digo e continuarei a dizer, o problema são os pergaminhos. Na Holística Ternure, só assistimos séries. Isso faz parte da Iniciativa de Segurança também, além de prender na estaca quem usar Cão Gaulês e família.”

“Bom, com ignorância alheia não se mexe, não é?”

“É.”

“Estaríamos vendo uma lenta volta à política? Quero dizer, a magnepressão mudou muita coisa.”

“Estaríamos sim, mas não tão cedo. Por enquanto, a Iniciativa é, como eu disse, business egoísta, seu animal.”

“Se isso não fosse um pergaminho, te encheria de porrada, Siggy.”

“Igualmente. Dá um abraço.”

“Encerramos este texto com uma mensagem da Holística Arcaico-Ativista: se você gostar de debater e discursar e nadar em piscinas, nós temos espaços abertos, campo para magnepressão incitiva e cachorros. Não venha de bicicleta, nós pedimos isso. É sério. E, de vez em quando, é preciso produzir um pergaminho como este. Fale com o Theudebert que ele te explica melhor. Falou.”

2 thoughts on “Pergaminho de Domingo à Tarde

  1. Bem, a pedido de algumas pessoas, aqui vai um contexto para esse conto.

    Ele se passa num futuro onde a noção de Estado foi transportada para pequenas comunidades, casarões, chamados de Holísticas. O maior crime nessa sociedade é a política democrática e o altruísmo social, definido pelos princípios da ignorância e da autorreferenciação. Por isso, o símbolo da ONU é equivalente ao símbolo nazista nos dias de hoje. O entrevistado – Sigeric – e a Holística Ternure são acusados de fazer política, pois se opõem às magnepressões – hologramas que se convertem em objetos físicos -, em especial a uma chamada Cão Gaulês, que é uma arma branca em tamanho real. Por essa razão, eles iniciam algo chamado Iniciativa Admnistrativa de Segurança Dinâmica, onde eles restringem o uso das magnepressões e não toleram que sejam usadas próximas a eles. Quanto ao pergaminho, essa é uma sociedade no qual o uso da mídia audiovisual está em desuso. É um entrevista impressa em texto.

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