O Cavaleiro Espectral e a Besta

cavaleiro espectral e a besta

Os caules não tinham folhas, as folhas sem vida mesclavam-se com a lama, a lama mesclava-se ao marrom das botas, e todos aguardavam ansiosos a tempestade que levaria toda a colina consigo até o leito do rio cor-de-argila, onde Wachen e o Cavaleiro Espectral haviam acampado na noite anterior.

O som começou, uma força distante rasgando o chão da floresta. Agachado, com uma funda numa mão e um pedaço de pau na outra, o Cavaleiro tentava aguçar os ouvidos com pequenos solavancos da cabeça. Wachen agarrava sua lança e seu escudo como se fossem o seio materno. Um trovão os distraiu.

Sem olhar para Wachen, o Cavaleiro disse:

–  Solte essa lança. Não irá adiantar.

Wachen não foi capaz.

–  Nenhum tipo de sensação de segurança lhe será útil aqui, Wachen. Escute.

O som estava próximo, um galope de patas imensas e um arrastar, fazendo par com o trovão que se arrastava através do céu.

– Se nós não o matarmos, morreremos – disse o Cavaleiro. – Por isso, temos que matá-lo de qualquer jeito. Isso não é um duelo. É o mundo contra nós.

Wachen, tremendo, repousou a lança e o escudo no chão e começou a tatear as pedras. Abaixo das folhas secas, elas eram pontiagudas, pedregulhos feitos pelo próprio demônio. O chão tremeu repetidas vezes. O Cavaleiro preparou sua funda.

– A Besta é mole entre os olhos e na sola de suas patas – disse o Cavaleiro. – Olhe nos olhos dela e faça-a empinar.

Com um urro, a Besta trotou para a clareira na direção deles, colina abaixo, derrubando árvores e rasgando o chão a cada pisada. Babava e se contorcia enquanto galopava, como se o fato de estar viva lhe causasse dor. Wachen e o Cavaleiro projetaram-se em seu caminho e gritaram. A Besta não reagiu. Rodaram as fundas, e alguma das pedras atingiram os olhos. A Besta rodou em torno do próprio eixo, urrando, enquanto os dois aguardavam uma brecha para espancar a sola de seus pés com as clavas.

Os trovões tornaram-se mais agressivos e uma garoa começou. Não obstante, Wachen e o Cavaleiro prosseguiam espancando a Besta e gargalhando, comemorando a aquisição da própria vida.

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