Poeira

poeira

 A areia se parece com o tempo. Nenhum grão é capaz de abarcar a imensidão da duna, e nenhuma duna é capaz de resistir a uma coisa tão leve quanto o vento. Não importa o quanto se tente mantê-la longe, ela entrará por qualquer fresta ou espaço. Ela fica visível em lugares onde houve um acidente, como à beira-mar, onde as rochas têm seu orgulho pulverizado pelo tempo, ou nesta terra esquecida por Deus, no coração do vazio.

Cormac observou os redemoinhos castanhos acumulando-se alguns quilômetros à frente, o céu ao fundo igualmente escuro, dançando para ele numa peça de mal gosto. O tempo que ele imaginou que nunca iria passar o trouxe até o coração do deserto. Escrito em seu destino, talvez, por uma divindade feita de partes de animais da qual restara apenas um punhado de esculturas de barro. Entretanto, sua espada não era feita de areia, nem os músculos de seus braços e pernas.

O Guia vinha cobrar o preço e Cormac iria matá-lo.

Para começo de conversa, ele não deveria estar coberto de panos e couro como estava. Deveria estar limpo, embalsamado, vestindo apenas um objeto de ouro, um colar ou bracelete. Cormac tinha nos dedos, braços, pescoço e na mochila a parcela mais valiosa das riquezas que tinha acumulado naqueles últimos anos de amnésia espiritual. Sem o Guia, não teria conquistado nada daquilo, nem mesmo o amor de Elgund. O preço era jogar tudo fora e morrer lentamente. A ilusão do tempo, a magia da areia, acordaram nele um lado muito desagradável no que tocava seres antigos, destino, a palavra dos deuses, o certo e o errado.

A silhueta negra surgiu em meio aos redemoinhos como se oriunda de um portal. Ela parou, meio encurvada. Farejou os impropérios de Cormac, ele imaginou. Qualquer um que estivesse no meio do deserto e visse o que via sairia correndo ou enlouqueceria. Cormac era como um gladiador naquele momento: a morte era a certa e havia a liberdade para lutar. Era tranquilizador. Na dúvida, soltaria um grito do fundo dos seus pulmões.

A silhueta curvada do Guia recuou para a parede de areia dançante. Grãos afiados chocaram-se contra o pequeno pedaço de pele exposta da face de Cormac. Seu coração acelerou. Uma segunda linha de tempo iniciou-se ali. Cormac caminhou de costas, claudicando duna abaixo.

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