Dragonfire

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Eximodus deu um gole longo, quase virando a caneca de cabeça para baixo. Quanto mais se curvava, mais apertava a lira contra o próprio peito. Ao terminar, bateu a caneca na mesa, como se precisasse chamar mais a atenção dos presentes.

– Existem quatro tipos de dragão – disse ele. – Primeiro, aqueles que falam. Eles são grandes, poderosos, inteligentes e têm algum tipo de poder estranho. Se você olhar nos olhos deles, pode ser que seja enfeitiçado ou perca a memória. Ou então eles se transformam em pessoas e fazem meio-dragões com os humanos, o que raramente dá certo. Estes são também o que estão presos na famosa psicologia draconiana, que pode ser seu ponto fraco, caso você seja bom na retórica.

Odomer fez uma careta para o menestrel, contorcendo a barba negra junto com a expressão.

– Mas quem é que vai usar retórica contra um dragão?

Eximodus sorriu.

– Quando o medo é tão grande que anula o medo, se é que me entende. Bem, prosseguindo, existe um outro tipo de dragão poderoso, que pode falar ou não. Só que este não está preso na psicologia. É um daqueles que tem um sopro estranho, seja de vento, raios, ou uma chama de outra cor que não a do fogo comum. A questão destes é que estão envolvidos em algum tipo de profecia ou destino divino, e a maioria deles está à procura de alguma pessoa que possa cumprir este destino. São como chefes de uma guilda sobrenatural em busca de aprendizes e serviçais para fazer uma série de trabalhos. Eles podem se tornar agressivos, mas o segredo, caso você não seja o escolhido, é achar a arma ou a relíquia correta que possa derrotá-los. Com esses não é preciso se preocupar. Eles só aparecem para o tal escolhido, ou então assolam uma vila inteira onde alguma facção militar aprisiona o escolhido.

– O senhor fala do escolhido como se fosse algo leviano – disse o velho anônimo do outro lado da mesa, por entre a fumaça do cachimbo. – Os deuses ainda irão retribuí-lo por sua insolência.

Eximodus olhou para os demais presentes.

– Aí está o problema com o dragão do tipo sopro-de-vento-profético. Não ofenda seu senso de determinação divina, ou ele retribuirá. – Ele chacoalhou sua caneca, certificando-se de que estava vazia, e a estendeu no ar, esperando que algum empregado a enchesse mais uma vez.

– Continuando para o terceiro tipo de dragão, que é o dragão-montaria. Ele não é tão poderoso quanto os demais. É mais como um animal, ainda que um bicho bem destrutivo. É inteligente, mas não como eu ou você; é mais como se fosse um cão adestrado, que entende as palavras do dono e sabe diferenciar seus amigos de seus inimigos. Com uma dose de sorte e paciência, é possível condicioná-los a serem suas montarias e transformá-los em máquinas de guerra. No entanto, alguns são selvagens demais para o trabalho. Além disso, é preciso criá-los desde o ovo. O problema deles é que sua necessidade de alimentação é enorme, estão sempre em busca de comida. Para um exemplar adulto, uma vaca inteira é como se fosse uma coxa de galinha para nós. Essa é também sua fraqueza. Com uma quantidade suficiente de carne, é possível dissuadi-los de queimar uma cidade inteira em busca de um almoço ou atraí-los para uma jaula.

– E quanto ao tesouro? – perguntou Odomer, coçando a barba negra.

– Quem tem tesouro normalmente é o primeiro tipo, pois acumular riquezas sem nunca as gastar ou compartilhá-las é parte da psicologia draconiana. Entretanto, em alguns momentos da história, utilizou-se o terceiro tipo para guardar tesouros especialmente valiosos, como cães de guarda.

Enquanto o empregado da taverna enchia a caneca de Eximodus, os demais beberam em silêncio. Foi o velho anônimo e sua nuvem de fumaça que perguntou:

– E o quarto tipo, Eximodus?

Eximodus apenas sorriu, segurando-se para não gargalhar. Odomer saltou da cadeira. O velho xingou e rezou ao mesmo tempo. Um dos mercenários foi ao chão; o outro ficou branco como o mármore. Eximodus largou a caneca e repousou sua mão escamosa e repleta de garras na mesa de cedro.

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