Fantasma

fantasma 1

Havia uma presença sombria no fundo da sala. Os demais à mesa pareciam todos iguais, encapuzados, como se isso os tornasse mais ameaçadores para Bamir. Homens que nunca haviam conhecido os demônios que o rildémos era capaz de invocar. O homem que o trouxera até ali estava em pé, ao fundo, diante da figura sombria.

Bamir não tinha medo da morte, só da vida.

Eles fizeram uma série de perguntas meio óbvias para ele, respondidas mecanicamente. Uma faca de lâmina negra foi jogada à mesa, como lhe disseram que ia acontecer. Alguma coisa naquela faca retesou os presentes. Um encapuzado parrudo, grande demais para estar entre os homens mais escorregadios de Atablan, tomou a faca e a levou à fornalha na extremidade oeste da sala. Perguntaram-lhe se desejaria tomar uma dose de akva antes que seu braço fosse queimado. Bamir sabia que teria que dizer não, o que era uma meia mentira: ele queria beber, mas não para aliviar a dor.

Após alguns gritos e a revelação dos rostos encapuzados, ele foi abraçado e tirado daquele porão imundo aos fundos do açougue. Cassur, o homem que o trouxera até ali, parabenizou-o. Bamir sentia-se imobilizado pelo evento. Sabia que a partir dali só haveria trabalho, e que não tardaria para que a coceira voltasse e o chamado da erva o levasse de volta a uma poça imunda no bairro de Valvomit.

A figura sombria permaneceu no porão do açougue. Aquilo fora a única coisa que o incomodara.

Horas mais tarde, os homens ocuparam uma taverna três ruas abaixo. Ao entrarem, clientes e empregados se agitaram. O local foi esvaziado e as bebidas servidas às pressas. Algumas mulheres chegaram ao local e se juntaram à bebedeira. Elas vestiam panos excessivamente coloridos e conseguiam ser mais barulhentas que aquela corja – a corja da qual Bamir agora fazia parte, jurando sua própria vida e tatuando seu maldito símbolo em seu braço. Uma delas, no entanto, chamou-lhe a atenção. Vestia-se discretamente e os Cengasmut ignoravam sua presença, com exceção do gigante barbudo, que cochichava com ela por sobre o ombro.

Tinha a pele mais branca que já tinha visto em sua vida, quase um fantasma com uma peruca ruiva. Uma alma penada, tímida diante de todos aqueles espíritos famintos e da alma apodrecida de Bamir. Ele ergueu o copo e brindou com os colegas próximos.

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