Estrela do Inverno

estrela do inverno2

Todas as mesas do Grande Salão estavam ocupadas e recheadas do melhor que a Torre Quebrada tinha a oferecer: grandes perus dourados, preenchidos com batatas assadas e molho de ervas; leitões inteiros com uvas e queijo de cabra; cerveja escura; vinho envelhecido em carvalho; mingau de aveia com feijão e pés de ganso. O Senhor Galduf da Torre passou os olhos de uma ponta à outra. Estavam também todos ali: O Rei Hildrik, esposa e guarda pessoal; os três herdeiros de Hlod, um deles com a nova esposa; além dos principais patriarcas daqueles que seguiam as duas dinastias em sua rebelião. Também estavam ali Erbold, sentado ao fundo, seus homens espalhados e dissimulados, vestindo capas compridas e escuras. Galduf teria que lidar com eles em algum momento no futuro próximo. Naquela noite, eram aliados.

Sua esposa Ligund se mexeu desconfortavelmente ao seu lado.

– Algum problema? – ele perguntou.

– São muitos deles – disse ela.

Galduf olhou para o mezanino escuro sobre o salão. Com dificuldade, discerniu silhuetas sombrias, aguardando seu chamado.

– E o que você sabe sobre isso, mulher? Está tudo preparado.

– Não é isso, meu esposo. É que… são muitos. Muitas vidas.

Galduf olhou para o salão de novo. Todos comiam e bebiam, com exceção do velho Conde Fargo, austero e sério como sempre, a barba cada vez mais branca e comprida com o passar dos anos. Fê-lo lembrar de suas viagens com seu pai, o antigo lorde da Torre Quebrada, de como ele temia e admirava aquele chefe, na época ainda de barbas negras e braços rígidos.

– Eu não discutirei isso com você, mulher.

– Não quero discutir, meu esposo. Sei que estes homens são rebeldes. – A voz dela baixou até um cochicho. – Sei que merecem. Sei que te traíram.

Três servos chegaram ao salão carregando um baú negro. Abriram-no, revelando taças e tigelas douradas, moedas prateadas, anéis, colares, que foram distribuídos entre os líderes e seu séquito. Houve brados no salão. Conde Fargo, sempre austero no que tocava a comida e os prazeres da carne, arregalou os olhos e caminhou na direção do baú. Muitos levantaram suas taças em direção à mesa superior, na direção de Galduf e Ligund. Erbold e seus homens continuavam pelos cantos, comendo e bebendo discretamente.

– Sei que não fazê-lo te criaria ainda mais problemas – continou Ligund.

– Você sabe, é?

Ligund tateou o colar até alcançar o pingente: um estrela delgada, folheada em prata. A Estrela do Inverno. Ela a repousou sobre a palma da mão aberta.

– Eu não temo os deuses da morte, mulher. Sei que minha vida não foi das mais santas, mas eu tenho que fazer o que deve ser feito. Você não entenderia.

– Eu não estou falando da morte, meu esposo. Onde está seu coração agora?

Galduf viu os homens de Erbold se entreolharem e olharem para ele. O baú era o primeiro sinal. Conde Fargo, despido de sua compostura, cavucava os tesouros com avidez.

– Agora, neste momento. Onde está seu coração?

Um brilho afiado, diferente daquele do ouro e da prata, faiscou ao fundo do Grande Salão.

– Onde está seu coração?

Galduf foi acometido por uma tosse pesada, vinda de algum lugar diferente da tosse comum. Seu estômago ardeu, refutando a cerveja. Ele se levantou e cambaleou, indo de joelhos ao chão. O peito doía. Era aquele o momento então, quente e alimentado, dentro de sua própria fortaleza. Em poucos instantes, os lordes próximos o cercaram. Quando gritaram por um médico, Galduf já estava sentado, um pouco tonto, mas bem. Com seu típico mau temperamento, xingou e afastou a multidão que tentava ajudá-lo.

Já em pé, ele abriu a mão direita, e nela estava o pingente da Estrela do Inverno.

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