O Ancião Sombrio

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Haumer tateou a insígnia em forma de sol presa à túnica. Seu mérito, e agora sua responsabilidade. Uma reza que repetiu para si mesmo a partir do momento que pôs os pés na torre de Purcalat. Estava diante da maior porta que já tinha visto, entalhada com tamanho detalhe que seria necessária a vida inteira de um artista para cada trecho da história que contava. Uma história de conquista e submissão. Acima, estava o sol de treze pontas.

Quando mais jovem, Haumer sonhou diversas vezes com aquele momento, no qual sua força de caráter e sua esperteza o fariam conquistar a própria Atablan. Enquanto tateava nervoso a insígnia que o identificava como o mais novo Condestável da cidade e observava a saga da conquista das Terras da Lei, dava-se conta da própria pequenez, do quão maior, mais complexa e assustadora era a Atablan real do que aquela que ele conquistava em suas fantasias juvenis.

A porta abriu com um rangido grave, revelando a escuridão e intensificando o odor. De lá, surgiu um homem barbudo, curvado sobre o robe de seda vermelha, com um medalhão de bronze pesando no pescoço.

Parecia algo saído de uma história de Andarilhos ou similar.

– Está preparado, senhor Condestável? – disse o ancião. Haumer o reconheceu como um dos Anespornat, o mais alto cargo político de Atablan.

Haumer hesitou. Teve impressão de ouvir um silvo vindo de dentro do salão.

– Estou, senhor…

– Anestamurt.

– Sim, senhor Anestamurt.

O ancião sorriu.

– Então deixe-me ensinar sua primeira lição, agora que é um dos homens mais importantes da cidade: você não está e nunca estará. Você pode estar preparado para a guerra e para a política, mas nunca estará para o Mateminot.

Sentindo um pouco da autoconfiança retornar, Haumer se recompôs.

– Com todo o respeito, senhor Anestamurt, mas tudo o que posso fazer é manter meu respeito e minha lealdade inquebrável ao Rei. Mais que isso, não é necessário ou desejável; menos que isso, é apenas condenável. Todas minhas decisões até aqui se pautaram nessa distinção.

Anestamurt caminhou ao redor de Haumer, deixando a fresta escura do salão do Rei entreaberta.

– Distinçao, você diz – disse o ancião por trás de Haumer. – Sem dúvida você possui uma excelente mente militar, como o próprio Anestast me informou. Agora me diga: como você distingue um homem do outro? Pelas suas ações, se é que começo a entendê-lo. Mas, a princípio, todos eles são homens, capazes de agir de maneira correta ou condenável. Você por um acaso julga um cão por suas ações?

Haumer sentiu-se ameaçado fisicamente por Anestamurt. O homem parecia andar com um punhal escondido nas vestes, e sua voz era desagradável de ser ouvida.

– Claro que não – disse Anestamurt. – Um cão segue sua natureza. Mas você está bem com isso, pois é fácil conhecer a natureza do cão. O que diria de algo cuja natureza você não pode conhecer? Você tenta eliminá-lo o mais rápido possível, pois sua natureza pode ser tanto benevolente como perigosa. O que você então diria de um ser cuja natureza você desconhece, mas que está acima de você: seu corpo é mais poderoso que o seu, assim como sua mente; e, acima de tudo, ele é o seu deus, seu chefe e seu líder? Veja.

Anestamurt apontou para uma seção do entalhe da porta onde um homem fundia-se com o que pareciam ser tentáculos brotando da terra, enquanto corpos moribundos caíam ao seu redor.

– Por mais que você tente, senhor Condestável, é impossível confiar no Rei Amet. E ele sabe disso, e verá por trás de qualquer gesto que você escolha adotar.

– O que quer dizer com isso? – perguntou Haumer, com a voz trêmula.

– Só há horror aqui, senhor Condestável. E não há nada que possa fazer para escondê-lo ou superá-lo.

Anestamurt saiu caminhando, deixando a porta aberta. Alguma coisa naquele cheiro era familiar. Não se podia perceber qualquer traço de luz vindo de dentro do salão. Haumer perdeu todo seu desejo por poder, prestígio e glória ali naquele instante.

Entrou.

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