A Menina da Porta ao Lado

a menina da porta ao lado

Eu vi o Carteiro chegando ao meu escritório de longe, um ponto branco e preto no meio da multidão que caminhava apressada na calçada. O seu toque na porta foi fraco. Tinha bolsas cinzentas sob os olhos; o cabelo penteado com gel realçava a cara de morte e a postura de quem carregara sacas de feno nas costas desde a infância. Precisei apontar para a cadeira diante da minha mesa para que não desabasse no chão. Aquele não era o Carteiro que eu conheci na escola. Pedi para contar-me o que passava.

– Começou há seis meses, quando a Menina mudou para a porta ao lado. No primeiro dia, ela tocou a campainha e me pediu pó de café. Depois de um mês, quando eu torci meu tornozelo e fiquei um mês andando de muleta, ela veio até minha casa e tomou um chá comigo. Isso foi dez dias antes do irmão dela morrer. Afogado, na piscina do clube. Ela chorava e eu me senti obrigado a consolá-la. Ficou por uns dias lá em casa. E mais uns dias. Um cheiro ruim começou a vir da porta ao lado, e toda vez que eu tentava dizer a ela que precisava voltar para sua casa, ela começava a chorar. Começou a dormir na minha cama. Então, toda noite, um táxi ficava parado diante do prédio com uma sombra dentro, que de vez em quando jogava a luz de uma lanterna na minha janela. Ela disse que era só seu ex-marido, que era policial. Comecei a ficar apavorado e ela começou a me chamar de covarde toda vez que eu perguntava se aquilo era uma boa ideia. Desde a primeira vez que transamos, ela nunca mais saiu da cama. Ficou doente por causa disso, tossindo grosso, e eu ainda não conseguia falar para ela ir para a casa dela sem que chorasse ou gritasse. Nunca mais dormi mais do que meia hora seguida. O cheiro ruim da porta ao lado começou a ficar insuportável e meu apartamento se encheu de mofo. Ela começou a me morder e me arranhar durante a noite. O ex-marido começou a ligar lá para casa e dizer que eu ia morrer. Não sei o que fazer.

– Eu acho que você sabe, por isso veio aqui – eu disse. – Deixe comigo. Nem pense em dinheiro.

No dia seguinte, coloquei minhas luvas de couro e o silenciador na pistola. Dirigi até o endereço e entrei no apartamento. O Carteiro estava lá, sentado à cama.

– Faça o que tem que fazer – disse ele. – Aproveite que ela está dormindo.

Sentei-me num caixote diante dele e olhei em volta. Havia uma pia suja, um balde de água, um tubo de gel, cabides com duas calças pretas e duas camisas brancas, e um pôster promocional do filme Crepúsculo com a imagem da atriz Kristen Stewart com marcas de unhas.

O prédio estava abandonado havia décadas e prestes a desabar.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *