Lama

lama

Ouvi trovões antes de dormir e sonhei que jogava bola na chuva, tendo que driblar as poças e vendo adversários presos nos brejos do meio campo, onde martins-pescadores mergulhavam e voltavam com camarões brancos e cegos no bico. Sofri uma falta na entrada da grande área, preparei-me para cobrar, e quando contei os passos para trás afundei num dos brejos e ouvi o silvo da píton que o habitava.

Acordei com lama da cabeça aos pés e os móveis boiando ao meu redor. Saí nadando na sujeira para constatar que a vizinhança continuava limpa. Dois canos de esgoto essenciais para o sistema de saneamento do bairro estouraram sob minha casa e a cagalhofa toda subiu. Perguntavam-me o que tinha acontecido e eu expliquei a história umas cinquenta vezes.

No final do dia, depois de cinco banhos, a lama não saía. Havia bombeiros e funcionários do saneamento na minha casa e eu tive que voltar para o apartamento dos meus pais. Minha mãe reclamava e chorava toda vez que eu me deslocava pela casa e deixava meu rastro enlameado. Meu pai, coitado, aumentava o volume da televisão cada vez que minha mãe tinha um desses ataques, e ele sempre assistia documentários sobre guerra em loop.

No terceiro dia, tomei uma decisão radical: fui ao lava jato. Ofereci pagar o preço de um carro usado para que os locais me lavassem. O problema era que provavelmente o processo arrancaria minha pele fora. Tentei lavanderias e pet shops, sem sucesso. Fiquei triste. Comprei uma garrafa de vodca e a compartilhei com os mendigos que moravam ao final da rua dos meus pais. Eles me apelidaram de Cascão. Quando um mendigo diz que você está sujo deve significar alguma coisa.

Morei nas ruas por um mês até conseguir um emprego numa empresa especializada em limpar a merdalhada de situações como aquela da minha casa ou de caminhões de lixo tombados. Trabalhava sozinho, de madrugada.

Um ano mais tarde, ganhei um parceiro de trabalho. Havia anos que mexia em lamas piores do que aquelas, mas era limpo e até arrumado para alguém que vivia de enfiar a mão na sujeira. Ele me viu e caiu na risada. Então contou o segredo do seu prumo: sangrias, refluxos induzidos e suor, organizados num ritual diário de autoflagelação. Demorei dias para ter a coragem de fazê-lo. Funcionou. Enfim, limpo.

Continuei trabalhando com merda, desde banheiros químicos a desastres sanitários como os que ocorreram em minha casa. Transformei-me numa pessoa cheirosa e sem medo de me enfiar no brejo.

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