Quarenta e Quatro do Segundo Tempo

44 v2

Acenei para a beira do gramado na direção do Wagner, que tinha manchas escuras na camisa sob as axilas. Vi que me olhou e bati com o indicador no pulso. Ele fez o sinal de quatro com a mão duas vezes, o que significava que eram quarenta e quatro do segundo tempo. Caminhei pelo círculo central, sentindo o tornozelo esquerdo latejar e passei a dois centímetros do número 16, que pingava e bufava, se esforçando para não colocar as mãos nos joelhos e mexer a bundinha. Me encarou. Era o culpado daquela latejada. O apito soou a poucos metros, estridente. Os homens de branco se espalharam pelo campo de ataque, enquanto os de azul caminhavam de costas. Pude ver acima do gol do Michael pessoas deixando o estádio. A bola voou e eu corri com o 16 na minha cola. Ele ia me pegar de novo. O Johnny perdeu a cabeçada pro número 8, mas a bola espirrou pro nosso lado. O zagueirão com tatuagem no pescoço matou e o 16 correu pra receber. Acompanhei ele e vi que minhas pernas ainda estavam fortes e que o 16 teve que travar os dentes para se apresentar pra receber o passe. Diminuí a passada. O 16 ficou livre, recebeu um toque meio quicado e eu acelerei. Alguém atrás de mim gritou “ladrão” enquanto a bola espirrava na canela do filho da puta. Passei pelo lado esquerdo dele e senti a bola relar no meu dedão direito e o rim do desgraçado no meu punho direito. Ele gritou e levantou a mão. Os dois zagueiros adiante levantaram os braços e a arquibancada soltou um murmúrio surdo. A bola sobrou e o zagueiro careca veio pra cima. Farejei o carrinho e escondi a bola pra esquerda. Vi um vulto branco com o canto dos olhos passando lá na ponta esquerda. Juan gitou “bora” no meu ouvido direito enquanto ia pra cima do zagueiro de tatuagem no pescoço, sem puxar a marcação e sem uma das caneleiras. O gol estava aberto para mim, mas ainda estava longe, e o zagueiro da tatuagem nem se preocupou com o Juan, que já tinha ficado cansado só daquela arrancada pra receber. Avancei com meia velocidade, esperando o careca vir bater minha carteira ou o da tatuagem deixar o Juan livre. Ninguém gritou ladrão. O número 8 já estava quase no Juan e o da tatuagem quase em mim. Foi quando vi um branco à minha esquerda. Johnny. Rolei de lado para ele e parti para a diagonal esquerda. O Juan banheirou, não tinha perna nem pra sair do impedimento. Peguei o vácuo e o número 6 colou em mim, o baixinho corredor que me deu um chapéu no primeiro tempo. Pegou na minha camisa e eu girei para a direita enquanto o Johnny tentava clarear o careca para o meio. O goleiro e a torcida berraram para o careca meter porrada no Johnny, mas era ruim, hein? Saí do baixinho, que ficou indeciso entre colar em mim e no Christian, que era o vulto que eu vi na ala esquerda; apesar de mal-posicionado, gritava que nem uma menininha para mandarem para ele. Vi que o Johnny clareou e cruzei a linha da grande área na direção do cara da tatuagem. O número 8 continuava que nem um carrapato no Juan, que estava de mãos na cintura. Johnny largou na direção minha e do zagueiro, eu correndo da esquerda para a direita e ele na direção contrária. A bola veio mais pra ele mas eu era mais rápido. Dominei cortando para trás, agora quase na ponta direita. Esperei a falta mas o tatuado era esperto, sabia que eu ia cair. Tirei dele e ele me perseguiu. Não tinha ninguém na ponta direita, nem de branco nem de azul. Fiz que ia pra linha de fundo e cortei de letra pra trás, meio desengonçado, mas o tatuado escorregou. A bola estava no meu pé esquerdo. O número 8 estava entre mim e o gol e já de mãos para trás. O Juan estava perdido em algum lugar da pequena área, totalmente impedido e sem saber onde estava a bola. O Johnny estava caído, provável consequência do passe que tinha me dado. Foi quando eu vi um trator suarento vindo de trás, pela minha esquerda. O 16. Vi que o 8 só cercava e olhei pro ângulo como se fosse bater. Vi a grama levantando antes do coisa ruim chegar e só puxei a bola para mim e dei um totó de meio metro. O 16 foi parar quase no 8. Entrei na área. O 8 veio pela direita e o goleirão saiu. Puxei mais pra esquerda, fugindo da marcação e da trajetória do goleirão. Então ouvi: “ladrão”. Era o careca. Driblei para trás e achei que ia perder, mas ele só raspou a bola com a sola. Agora estava quase na ponta esquerda da pequena área. Levei para o fundo e levantei a cabeça. O goleiro, de amarelo já estava pulando na minha direção. Já via a sola da chuteira do 8. O careca estava na sobra. Juan e Johnny esperneavam dentro da área, com o 16 e o tatuado os marcando. Escondi a bola e girei, olhando para a bandeira do escanteio. Rezei para que o Christian estivesse lá, mas estava longe, na entrada da área, com o 6 e mais outro cara tapando ele. Quarenta e quatro do segundo tempo. Zero a Zero. Não tinha por onde chutar, não tinha por onde driblar, não tinha para quem passar. Fechei os olhos e meti com toda a força de calcanhar. Seria para sempre odiado. Me ajoelhei. O estádio ficou em silêncio. Ouvi um grito e senti alguém me dando um mata-leão. Era o Johnny. O grito era de gol.

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