Metamodernidade

Metamodernidade

Todos os dias os cinco coveiros dividiam uma carona no SUV doado pelo professor de odontologia da universidade em troca de um favor ou outro de vez em quando. Cada um se alternava nos assentos por uma curva etária: os que tinham entre vinte e cinco e cinquenta anos ficavam na frente, e a direção dependia de qual dos dois da frente estava mais disposto.

Neste ano da graça de nosso senhor de 2017, a ordem era a seguinte: o ex-cirurgião de quarenta e cinco anos ia dirigindo; a ex-discípula de Shiva de trinta anos ia no banco da frente; atrás, ia a ex-freira missionária de sessenta e cinco anos no canto direito e o ex-assaltante de bancos de setenta anos no canto esquerdo; no meio um garoto de quinze anos que era só coveiro mesmo e estava ficando perturbado tanto com o trabalho e mais ainda pelas conversas no caminho.

Tudo começava quando a moça shaivista começava a reclamar que um cirurgião não deveria dirigir o carro. O assaltante ficava calado por que estava meio apaixonado por ela. A freira dizia que era uma pouca vergonha o que ela dizia. O cirurgião aguentava a barra e dizia para que ela dirigisse então. Ela respondia que a religião dela proibia conduzir veículos.

Depois de passada a primeira discussão, era a vez do cirurgião atacar, usando a freira como sua justificativa, dizendo que a vida deles era uma merda porque todo santo dia era a mesma reclamação da moça, e o garoto observava que todo santo dia era a mesma reclamação da mesma reclamação. Então a freira pregava, todo mundo se calava mas ninguém ouvia.

Nesse ínterim, o assaltante dizia pra todo mundo se calar se não ia meter porrada. O cirurgião dizia que era blefe e que ia jogar ele pra fora do carro ou fazer um BO. Então a shaivista dizia que o cirurgião era um escroto pois o assaltante tinha o direito de se expressar sem sofrer opressão, e falava isso num tom acentuado de opressão.  A freira acalmava o assaltante, que pedia benção, causando uma risada irônica no cirurgião.

Um silêncio seguia-se da chegada ao cemitério, onde começava a divisão de enterros. A moça shaivista enterrava só homens ricos para ganhar karma. O cirurgião só enterrava certas etnias pois dali poderia contrabandear algumas das melhores arcadas dentárias e córneas. A freira só enterrava pessoas sem fé, pois poderia pedir a Deus que encomendasse suas almas da maneira correta. O assaltante só enterrava pessoas da lei, para diminuir a culpa pelo que fizera na juventude e, ao mesmo tempo, por uma sensação de vingança ao vê-los desaparecer debaixo da terra.

O garoto, sempre quieto, enterrava qualquer um, treinando para o dia que fosse enterrar os outros quatro, seu grande sonho.

 

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