Dois Androides Esperando Revisão Na Concessionária

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A mulher de cabelos quase brancos e ombros masculinos girava na mão uma placa onde se lia DCCCXXXVII. 837, o ano da revolta dos eslavos de Thessaloniki. Ela vestia uma camiseta azul e branca do NTCPE FC de Taiwan. Seus olhos de íris verde e amarela encontraram os meus e ela abriu um sorriso mecânico. Senti um caledoscópio de emoções e tive que falar algo rápido. Ainda faltava para ser atendido e não queria ser jogado num compactador de lixo só por causa de um olhar de plástico.

“Saindo daqui, eu irei ver o Castelo Knaresborough com meus próprios olhos”, disse eu. Ela girou a cabeça como se fosse um pássaro, olhando com um olho só.

“Eu não entendo.”

“Esqueça. Você gosta de filmes?”

“Eu vejo filmes do leste europeu às vezes. Há um filme muito bom chamado Novembro, está passando no… na… no… eu peço perdão, senhor.”

Ela estava pior do que eu, que me continha para não chorar com aquela conversa mundana.

“Um amigo meu já concorreu ao Clarence Derwent Awards. Era um bom ator, mas um pouco idealista demais.”

“O que aconteceu com seu amigo?”

“Eu não sei, mas vi seu nome listado no MDAX. Não consigo imaginar uma empresa com seu nome, muito menos ele gerenciando uma empresa. É um absurdo. Um absurdo!” Tremi após as palavras, segurando as lágrimas. Desviei o olhar para a armação de aço da janela acima da minha colega de cabelos quase brancos.

“A pessoa que me levava ao cinema trabalhava para a Heungkuk Life Insurance Company. Acho que é uma coisa grande. Ou talvez dissesse isso só para ter companhia. Eu não sei.”

Enfim, tranquilo.

“Você já ouviu falar do Triângulo de Sábato?”

“Não gosto de falar de negócios. Prefiro o cinema. Você quer ir ao… cinema?”

“E porque cinema do leste europeu? Você não parece ser daquelas pessoas que usam uma afirmação como esta para ganhar capital social.”

“Sou de Zelengora. O leste está no meu coração, seja lá o que isso queira dizer.” Ela ergueu a mão direita ao alto, lembrando-me da Profecia de Agabus de Louis Chéron. “Kraz no céu, Corvus brilhando sob as montanhas. De lá é possível vê-la mesmo sem um telescópio.”

Depois de baixar o braço, ela tremeu, e de novo as emoções me oprimiram. A recepcionista teclava furiosamente. Baixinho, os alto-falantes no canto da parede começaram a tocar Kannon 1 do Sunn O))). O pequenino Platydoras de listras castanhas se agitou no fundo do aquário. O mundo estava prestes a explodir.

“Senhora Helen Garner”, disse a recepcionista. Minha amiga obscenamente loura se levantou e deu um giro em torno do próprio eixo antes de atravessar o batente que levava à escuridão, mais semelhante a um quadro cinza-escuro pintado na parede do que uma passagem. Fechei os olhos e me imaginei de volta ao Farup Summer Park, deslizando na montanha russa sobre o lago, aquele monte de água e crianças rosadas para todo o lado. Saquei meu Beaumont-Adams de dentro da jaqueta. Se o mundo estava para queimar, eu iria junto com ele.

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