Vampiros e Modelos de Desenvolvimento

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Ele chegou de dia, sim, de dia, em plena luz do sol, sem brilhar nem queimar, sem protetor solar especial, sem vestes modernas, só um cara com um olho sem pupila onde queimavam pequenas supernovas.

O professor travou na poltrona, deixou o livro cair, ao ver que o vampiro sentou em birmanesa no chão relaxou um pouco e perguntou qual era o motivo daquela visita diurna.

“Vim aqui para te deter, professor. Ou melhor, para dizer porque você tem que mudar sua direção.”

O professor coçou a careca brilhante e ajeitou os óculos pequenos e redondos. Puxou o ar três vezes para falar mas nada saiu.

“O problema disso tudo, professor, é, como sempre, o objeto-guia da coisa toda. Veja só, um modelo que analisa os estágios de desenvolvimento socioeconômico sempre falhará em suas previsões porque nem tudo é socioeconomia. Seu modelo, o que você roubou e tornou seu, para ser mais preciso, está preso pelo desenvolvimento da consciência. Ele leva o modelo socioeconômico para além do que ele próprio pode prever, mas analisa erroneamente o que vem a seguir, porque nem tudo é consciência.”

Ali foi quando o professor perdeu parte do medo e se preparou para rebater até se lembrar de que o cara era um vampiro, alguém que havia encontrado a morte em vida e tido tempo para refletir sobre ela.

“Ao fim e ao cabo, é uma filosofia, e uma filosofia nunca sai do crânio de quem a professa. Sua consciência não passa de uma coisa chamada estrutura mente-corpo. O despertar espiritual que o senhor clama não é despertar, é uma viagem mental, um produto da imaginação. Eu posso entender que seja complicado para o senhor, e olha que o senhor é uma das pessoas mais qualificadas para ouvir o que eu estou falando, é complicado para o senhor e seus estudantes ver alguma coisa além da consciência, ainda mais encaixá-la num modelo. A superação da pós-modernidade não é fruto da consciência. A consciência é a barreira. A espiritualidade é a barreira. A busca é a barreira. O desenvolvimento pessoal é a barreira.”

Agora o professor estava afundado na poltrona, cada vez com menos medo da criatura e sua fala pouco educada.

“Este é o problema das suas aulas e dos seus livros, professor. Tentar transformar a pós-pós-modernidade num método de evolução pessoal. Você sabe mais do que eu o quanto isso foi feito antes. Transformar a religião numa forma de progresso social, transformar a ciência numa forma de autoconhecimento, transformar o individualismo numa forma de intento humanitário. Se seu corpo estivesse gelado e estagnado na existência como o meu, você veria o quão patético é tentar ser uma pessoa melhor.”

O professor se levantou com um salto e pegou a tabela multicolorida na parede, exibindo-a ao vampiro e dizendo que o poder do modelo iria mandá-lo de volta para o inferno de onde ele havia saído.

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