Dor e Redenção

dor e redenção

O círculo se fechava a cada grito do general chifrudo, tangendo os escudos ensanguentados e lâminas sem face no que mais cedo fora nossa infantaria. A cada grito, dezenas de outros seguiam-no, desesperados, cortados, o cheiro de podridão que se seguia à quase-morte. Os colegas se tornaram tão ameaçadores quanto os inimigos, espremendo-me por todos os lados e tornando o ar um bafo quente incapaz de prover fôlego.  Não tive escolha: cortei alguns deles para me livrar do bolo humano até encontrar a parede de escudos. Uma lança veio de trás de mim, passou rente à minha orelha e espetou o ombro esquerdo de um dos guerreiros da muralha. O escudo foi ao chão e eu corri, cortando tudo que me apareceu no caminho. A névoa matinal estava vermelha. Algo espetou minha perna direita mas não me deteve.

Corri até escorregar por uma passagem escondida entre as pedras, moldada por um fio de água cristalina e gelada. Caí numa relva fofa e me vi cercado por homenzinhos de olhos grandes. Um deles, que tinha aljava e arco presos às costas, agachou-se à minha frente e me estendeu a mão, dizendo: “Por mais que o sangue excite, ele não é o único sentimento disponível neste mundo. Existem outras formas de tristeza.”

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