Sebastião

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Qualquer fiapo de luz concentrada pela menor das aberturas numa cortina opaca, posicionada na direção do poente, revela um universo de astros revoltos. De cara colada no chão, vi o sol daquele sistema, um bolão de poeira que dava socos contra a gravidade para se manter no lugar. Chamei-o de Sebastião. Sebastião era o rei dos flocos. Eis que chega um segundo, um sem vergonha quase do tamanho do Sebastião, mais fino e comprido. Jeremias. Sebastião se alçou e Jeremias o seguiu, assim como os demais floquinhos insignificantes. Sebastião, o rei, estava próximo ao limite do feixe de luz, mas Jeremias, por ser mais esbelto, planou numa espiral ascendente e desapareceu nas sombras, enquanto Sebastião, como se tivesse sentido a derrota, começou a afundar na brisa alaranjada, descendo até ficar próximo do meu nariz e ser engolfado pela água derramada no chão. E Sebastião não mais era, e não havia mais rei. O sol mudou e todo aquele universo desapareceu. A noite caiu. Os monstros saíram de suas tocas, fingindo que me caçavam, rindo do meu desespero.

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