Olhar

olhar

Sou uma pessoa sem língua. Aprendi a falar com o olhar. O olhar não trai, por isso é impossível mentir, e é impossível cair nas mentiras dos outros. Sem as mentiras, não há convívio que se sustente, pois a verdade também é transitória e não tem tanta importância assim.

Sem o equilíbrio saudável entre mentiras socialmente aceitas e verdades passageiras, fui para o campo aberto. Comprei uma terra onde os ventos sopram fortes e destroem em horas o que as mãos levam anos para construir. Encarei os céus com fúria numa oração/rogação de praga ocular.

Fui à vila e comprei papel e lápis. Mas não tinha empunhadura para a escrita; a escrita começa na boca, também sempre com suas mentiras necessárias. Só pude escrever o olhar indecifrável da experiência, cheio de emoções e memórias lutando para serem as únicas e para serem o que nunca podem ser: perenes.

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