Deuses

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Johnson entrou no casebre. Dispôs as cadeiras em círculo, despejou parte dos biscoitos do saco num prato e passou o café. Ajeitou a gravata e se sentou. Garoava do lado de fora. As ondas mugiam a alguns metros dali. Ajeitou a gravata mais uma vez. Os deuses estavam chegando e eles decidiriam coisas importantes, como no livro do Neil Gaiman.

O primeiro a chegar foi um homem iraniano de mais de dois metros de altura, cheio de adereços de penas de falcão. Ele circulou pela sala sem dizer uma palavra e sem olhar para Johnson. Encarou os biscoitos com interesse, mas não disse nada. Ficou em pé, no fundo da sala, quase no ponto cego do olhar de Johnson.

O segundo a chegar foi um homem com cara de espanhol, baixo e forte, com uma regata da Gold’s Gym, tatuagens caóticas e um sorriso de comercial de pasta de dente. Ele disse algumas palavras numa língua estranha para Johnson e para o gigante iraniano, tirou um livrinho do bolso e se sentou de pernas cruzadas.

O terceiro a chegar foi um maltrapilho louro com cabelos e barba até quase o joelho, vestindo um gibão de couro e carregando uma faca na cintura. Ele atacou os biscoitos sem dizer nada para ninguém, gemendo enquanto comia. Johnson teve que esperá-lo acabar para repor. O homem só não destruiu o saco novamente pois o iraniano se interpôs entre ele e o prato, e os dois trocaram insultos em línguas que não se misturavam.

O quarto a chegar foi um dreadlock narigudo e sorridente. Apesar do cabelo pouco convencional, era o mais limpo da sala, até mais que Johnson. Ele não conseguia tirar o sorriso do rosto. Separou a discussão entre o iraniano e o maltrapilho e depois se sentou no chão em birmanesa. O espanhol pela primeira vez tirou os olhos do livro e torceu o nariz para o homem.

O quinto a chegar foi um professor universitário norte-americano de meia idade, que fez várias perguntas a Johnson sobre a segurança do local e deu sugestões sobre como a conversa deveria ser conduzida. Johnson não entendeu nada.

O último foi um crocodilo africano de 3m de comprimento, que avançou sobre os presentes. O professor universitário soltou um grito e correu para cima da mesa, junto com o espanhol. O iraniano gigante começou a cantar e mover as mãos. O louro maltrapilho se atirou sobre o bicho com a faca nos dentes e o agarrou pelas costas. O dreadlock abriu os braços, esperando a mordida.

Johnson sacou o .38 escondido na cintura e deu um tiro para o alto. Todos pararam, inclusive o crocodilo, imóvel, de boca aberta. Uma goteira começou a pingar no local do tiro.

“Muito bem, pessoal”, disse Johnson. “Vamos começar as formalidades. Meu nome é Boddhisatva Johnson, também conhecido como Ramana Johnson. Historicamente sou creditado com a esfera da iluminação espiritual. Agora você, crocodilo.”

Sobek, o crocodilo, piscou as pálpebras em código morse.

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