Conhecimento

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Um barco a remo golpeou as areias cinzentas do Cabo da Coragem numa noite chuvosa. De lá saltou um homem magro, chupado pela fome, sede e pelo frio dos ventos oceânicos. Trouxe consigo um machado de lenhador, três lascas de peixe salgado e um pingente de cobre entalhado com a cara de um deus com língua de fora. Sobreviveu àquela noite, e quando a manhã raiou, percebeu que havia adormecido sob uma árvore de frutos amarelos e gordos. E ao lado dela, mais árvores semelhantes, que logo seu machado descobriu terem ótima madeira para se construir casas.

Em alguns meses, outra tempestade como aquela que havia levado o homem ao Cabo da Coragem trouxe outro barco, e nele havia uma família, um casal e três filhas. Quando o sol nasceu e dispersou as nuvens, depararam-se com uma casa cercada de árvores com frutos, um poço fértil e javalis encerrados num cercado. O homem os saudou e os alimentou. Tarde da noite, quando riam ao fogo e faziam escárnio do azar, o patriarca dos recém-chegados disse: “Depois da tempestade, sempre haverá a boa aventurança”. No dia seguinte, o anfitrião gravou aquela frase no altar de sua casa, onde descansava o pingente de cobre.

No Templo Maior do Cabo da Coragem, um jovem monge barbudo segurava um livro amarelado. Na passagem que lia, Serto, o herói da humanidade, disse adeus aos seus seguidores e partiu de barco rumo à tempestade no oceano. Em troca, todos seus fiéis receberam o verão mais produtivo para os campos de centeio e o Velho da Ponte recuperou sua visão com a primeira luz da manhã.

No escritório do departamento de meteorologia da Municipalidade de Cabo da Coragem, três mulheres suavam frio noite adentro para reunir os dados de precipitação para os quinze dias seguintes, dos quais dependeriam os produtores agrícolas da região para planejarem suas safras. Caso falhassem, muitas pessoas – inclusive parentes seus – iriam perder seus empregos.

No primeiro dia da estação das chuvas, no Ashram da Rua Serto de Cabo da Coragem, muitas pessoas vestidas de um jeito estranho acendiam velas e incensos e faziam um círculo de mãos dadas para enviar energias positivas para toda a comunidade.

One thought on “Conhecimento

  1. Notei vários temas recorrentes nos contos, como o New Age, o desencantamento, o tradicionalismo mágico e outras ideias que são encarnadas nos personagens ou, no caso desse conto, no fluxo do tempo do Cabo da Coragem.
    Meus favoritos nesse sentido continuam sendo “Os sonhos que temos” e aquele do encontro numa sala envolvendo um playboy, um metaleiro e outras figuras idealistas.

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