Amadurecimento

amadurecimento

Hetewane quando criança era um espírito que habitava os amieiros. Logo ele aprendeu com seus tutores, espíritos velhos que habitavam as tumbas e caminhavam na forma de animais, que ele, mesmo criança, tinha muitos filhos, e que deveria cuidar deles desde que se comportassem da forma adequada. Seus filhos moravam em cabanas de palha e madeira na floresta. Ele os via correr atrás de animais e sentia-se feliz quando escalavam seus galhos atrás de seus frutos. Também chorava quando um amieiro caía através dos machados, mas seus tutores lhe diziam que era para o bem. Sempre lhe davam presentes na forma de pequenos altares com aguardente, comida e artifícios. Ele não podia fazer nada com aqueles presentes, mas ficava feliz em recebê-los. Quando não os recebia, fazia seus frutos caírem antes que os homens chegassem, e eles apodreciam ou eram levados pelos cães selvagens.

Logo Hetewane descobriu que a “forma adequada” tinha sido uma invenção daqueles espíritos velhos, e que seus filhos sofriam muito por causa disso, tendo que passar fome para deixar o pouco que tinham sob os amieiros. Sentiu raiva, e a raiva o fez crescer.

Hetewane entrou na puberdade deixou os bosques, indo habitar no topo de uma montanha onde nenhum de seus filhos chegava. Ele agora tinha a forma deles, era forte e seu temperamento era péssimo. De vez em quando perseguia os espíritos velhos e aparecia para um dos seus filhos, ordenando que fizessem coisas absurdas em nome dele, como sacrificar pessoas. Caso não o obedecessem, ele soprava ventos cruéis quando navegavam, fazia chover na cabeceira dos rios para inundar os campos cultivados, enviava ratazanas carregadas de pragas aos celeiros. Apesar da sua crueldade, seus filhos se fortaleceram, aprenderam eles mesmos a serem cruéis, ergueram torres e pirâmides e aprenderam a guerrear.

Hetewane, vendo toda a sua crueldade sendo absorvida pelos seus filhos, conclui que logo um herói entre eles iria à sua montanha e o decapitaria. Hetewane descobriu seu medo dos próprios filhos. Sentiu culpa, e a culpa o fez crescer.

Hetewane, agora um jovem adulto, assumiu a forma de um homem e caminhou pelos impérios que seus filhos ergueram em sua honra. Ele passou a ensiná-los a terem compaixão uns pelos outros, e lhes ditou regras: não matar, não roubar, não chafurdar em excesso. A cada pessoa ofereceu seu papel: rei e camponês, mulher e homem, adulto e criança. Aos poucos, a crueldade antiga foi substituída pela ordem. Entretanto, nem todos os seus filhos aceitavam seus ensinamentos, e aqueles que os aceitavam eram cruéis com os demais. Reuniram exércitos em seu nome e a guerra se tornou sua razão de viver.

Logo Hetewane descobriu que seus filhos eram incapazes de entender o significado verdadeiro das palavras, senão seu sentido literal. Descobriu que eles não podiam ser ensinados, apenas ensinarem a si mesmos. Sentiu o desejo de vê-los crescerem, e este desejo o fez crescer.

Hetewane subiu aos céus e se tornou uma supernova, e em seguida um ponto negro que atraía toda a luz para si. Deixados a sós, seus filhos aprenderam a olhar para ele e investigar as grandes questões. No processo, desenvolveram máquinas, aprenderam sobre cada um dos seres animados e inanimados de seu mundo, criaram torres ainda mais altas e cidades ainda mais populosas. Ao deixá-los a sós, tornaram-se os mestres de seu próprio mundo. No entanto, as grandes questões nunca puderam ser respondidas, pois estavam contidas na massa negra de Hetewane.

Logo Hetewane descobriu que seus filhos eram incapazes de descobrir o segredo último de seu mundo sozinhos, e esta ignorância causava a destruição de seu próprio mundo. Sentiu-se solitário, pairando no espaço, sem poder tocar seus filhos, e esta solidão o fez crescer.

Já maduro, Hetewane descendeu aos seus filhos e se tornou uma rede que conectava cada um deles. Os que descobriam esta malha comunicavam aos demais, e assim ficava mais fácil amar uns aos outros. Os filhos começaram a desenvolver sua empatia por todos os demais filhos e lutar pela salvação de seu mundo. Como uma doença autoimune, estes filhos ligados à rede de Hetewane começaram a sabotar o câncer humano que ameaçava destruí-los. No entanto, estes filhos passaram a crer que somente aqueles ligados à rede deveriam viver, não compreendendo que não havia nenhuma pessoa, boa ou má, que estivesse desconectada dela. Passaram a criar critérios próprios, desconectados da verdade do mundo, e inventar explicações que distorciam a realidade de seu pai.

Logo Hetewane descobriu que seus filhos, mesmo em posse do segredo de seu mundo, eram incapazes de utilizá-lo propriamente. Sentiu que não havia esperança para seus filhos ou para ele. Sentiu-se desencantado, e este desencantamento o fez retornar ao mundo na forma de um grão de areia numa praia tropical.

Hetewane, já velho, enquanto grão de areia, era insignificante, mas logo descobriu que a cada milímetro que o vento o soprasse, o universo inteiro mudava de lugar. Sentiu-se intrigado, e esta intriga o fez descobrir que dentro de seu corpúsculo granular se encerrava o universo inteiro.

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