Kalevala

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Bétulas. Ao pensar no Kalevala, penso nas bétulas, que não só aparecem a cada página do poema, mas possuem mil propriedades mágicas.

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Entre os bosques de bétulas e as águas do norte, surgem os heróis.

Não há uma diferença muito distinta entre heróis e deuses, com exceção de Ukko, o deus supremo, o Criador, e talvez Tapio, senhor das florestas. Os heróis são em sua maioria magos/músicos, por vezes submetendo os astros e todas as criaturas ao seu poder, por vezes sofrendo de dores mundanas, como ferimentos por armas, rejeições românticas e a ignorância sobre forma a correta de se fabricar cerveja.

Wainamoinen, “velho e fiel”, é, sem dúvida, o personagem principal. Ele é o primeiro homem, aquele que semeia as árvores; exímio músico, capaz de fazer todas as criaturas sob a abóboda celeste chorarem com suas canções. Das suas lágrimas surgem as pérolas no oceano. É o governante de Kalevala, ou Terra dos Heróis. Por alguma razão, possui uma dificuldade tremenda em arranjar uma esposa, sendo rejeitado, perdendo duelos de cortejo e vendo sua possível noiva se afogar de desgosto ao cogitar uma vida ao seu lado. No início da história, quando ferido por um rival, é resgatado das águas por uma águia gigante. Ao final da história, com o nascimento do filho de Mariatta – surpreendentemente semelhante à Virgem Maria – e sua ascensão como rei, ele parte para o oeste extremo, esperando o momento de seu retorno. Já ouvi esta história em algum lugar…

Ilmarinen é um deus. Ou um herói. Ou ambos. Mais importante que isso, ele é o ferreiro, o forjador da abóboda celeste e do Sampo – a joia mágica que causa uma tremenda confusão e que ao fim é destruída. Já ouvi esta história em algum lugar. Todas as vezes que Wainamoinen ou outra figura heroica de Kalevala precisa de uma forcinha, ou seja, de um item mágico, pedem a Ilmarinen. Com exceção dos barcos, que Wainamoinen constrói cada vez que um desejo o leva à aventura, muitos deles feitos de cobre.

Em oposição à sabedoria de Wainamoinen está Lemminkainen, “belo herói Kaukomieli”, de temperamento jovial e inconsequente, sempre urgido por sua mãe a não fazer o que está prestes a fazer. Lemminkainen também é um herói, um mago e cantor. Em certos momentos, é apresentado como um vil feiticeiro, em outras, como um valente guerreiro. Lemminkainen é trazido de volta à vida numa das passagens mais belas do poema. Depois de ser mortalmente ferido, sua mãe usa um ancinho mágico criado por Ilmarinen para desencavar seus restos do rio negro de Tuonela, que separa o mundo dos vivos do reino dos mortos. E novamente Lemminkainen sai para a guerra e para aventuras, e novamente sua mãe o desencoraja. Com razão.

Numa das sagas finais, o dream-team de Kalevala se reúne para conquistar o Sampo: Wainamoinen, Ilmarinen e Lemminkainen.

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Wainamoinen e cia. lutando com Louhi pela posse do Sampo

Louhi, a governante de Pohyola (Lapônia), é o principal estopim das desventuras dos heróis, até mais do que Hisi, o demônio. Ela está em posse do Sampo, desejado pelos heróis de Kalevala. Ela é mãe das mais belas jovens, e gosta de enviar seus pretendentes para missões suicidas, como aquela que acabou custando a vida de Lemminkainen. Para coroar sua reputação de bruxa do mal, ela rouba o Sol e a Lua, causando desgraça e fome nas terras de Kalevala.

Por fim, temos Kullervo, “o filho do mal”. Sua história é mais ou menos destacada do contínuo de sagas envolvendo os heróis principais. Ainda assim, é o mais famoso. É famoso por ser trágico. Kullervo é separado de sua família ainda jovem. É incapaz de trabalhar: seus poderes mágicos superiores o fazem arruinar tudo o que faz. Ele é o filho do mal. Ao fim, termina cometendo incesto sem querer, o que causa o suicídio de sua irmã e, posteriormente, seu próprio suicídio, após uma conversa com sua espada mágica. Já ouvi isso em… tudo bem, Professor, você pode!

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Além das bétulas, temos os cucos, os ursos, a cerveja, o cobre, os biscoitos de mel, o frio, a escuridão; e as águas, a estrada dos heróis de Kalevala e Pohyola. Heróis com a impulsividade de crianças e a sabedoria de deuses. Um mundo virgem, simples e perigoso. A música por baixo dos mundos que criamos.

“Ali ele está firmemente ancorado, descansando em seu barco de cobre; mas ele deixou sua harpa mágica, deixou suas canções e palavras sábias…”

O Kalevala é um poema épico compilado no século XIX por Elias Lönnrot, considerado o épico nacional da Finlândia.

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