Homem do Gelo

homem do gelo

Todas as manhãs ele caminha até o buraco atrás de seu casebre à beira do lago congelado e mergulha. Sua pele quer congelar, seu sangue quer congelar, sua retina quer congelar, mas ele já aprendeu a controlar o fogo dentro de si. Nada por alguns metros sob o gelo e retorna.

A primeira afirmação que lhe fazem é: você deve gostar do frio. Melhor ainda, você deve amar o frio. Ele sorri e conta sobre a dor de mergulhar naquele lago. Ninguém gosta de um frio como aquele.

A afirmação seguinte é: sua saúde deve incrementar com o frio. Ele sorri, dizendo que existem benefícios, mas não suficientes. Sua pele enruga e queima cada vez que mergulha no gelo. Sua visão está comprometida, cada vez mais. Seu médico lhe disse, com todas as palavras, que ele precisa parar com aquilo.

A terceira afirmação é: é para ficar famoso, talvez. “Que fama?”, ele pergunta. Pergunte sobre a minha fama pela cidade. Pela internet. Busque meu nome e verá que não há fama nisso. Consequentemente, não há muito dinheiro em mergulhar todos os dias num lago congelado.

A quarta afirmação é: você está sofrendo, e precisa de algo para enganar sua dor emocional. Ele sofre, mas como uma pessoa média. Sofrimento medíocre. De qualquer modo, o uísque é mais eficiente, e ele não dorme sem sua dose.

A quinta afirmação, proferida quando ele não está olhando: é uma questão de evolução espiritual, construção de caráter. Ele sorri, tanto ao notar o quão mais fácil é elogiar pelas costas ou diante de uma lápide, quanto pelo fato de que este é um método muito ineficiente para a evolução espiritual. Ele não sabe quem é, por que veio a este mundo e é refém do medo da vida e da morte. Como todos os demais.

O entrevistador cruza os braços. O homem do gelo serve uma dose de uísque para si. Naquela noite, enquanto dorme, é esfaqueado pelo entrevistador, ansioso por eliminar para sempre aquela anomalia. O entrevistador arrasta o corpo para o buraco e vê-lo afundar. Retorna ao casebre com a mente em branco. Depois de alguns dias, retorna ao buraco, sem pensamentos relevantes e sem emoções discerníveis.

Tira a roupa e mergulha no gelo.

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